Ele Deixou a Inglaterra para Tornar-se um Sacerdote na Rússia – A História do Padre Christopher Hill

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NOTA DO EDITOR: Nos últimos 26 anos, o Pe. Christopher Hill tem sido um sacerdote na Igreja de Santa Catarina em Moscou, da IOA (Igreja Ortodoxa na América). Ele é fluente tanto em Inglês quanto em Russo e ministra para Cristãos Ortodoxos de diversos panos de fundo. Após ter crescido na Inglaterra, ele descobriu a beleza da Igreja Ortodoxa e fez uma mudança permanente para a Rússia. Esta é sua história.


Pe. Christopher Hill

“Nós não sabíamos se estávamos no céu ou na terra, certamente não há tamanho esplendor ou beleza em qualquer outro lugar na terra. Não podemos descrevê-la para você: somente isto sabemos, que Deus lá habita entre os homens e que o seu culto supera a adoração de todos os outros lugares. Pois que não podemos nos esquecer daquela beleza” (citado em The Orthodox Church por Timothy Ware, edição de 1983, p.269)

Estas palavras, ditas por emissários descrevendo sua experiência do culto Ortodoxo na maior igreja da Cristandade, a Santa Sofía, ou Santa Sabedoria, em Constantinopla, foram reportadas ao governador do vasto reino da Europa Oriental da Rússia de Kiev, o Grande Príncipe Vladimir.

Vladimir, posteriormente proclamado santo pela Igreja Ortodoxa Russa e agora visualmente familiar para os Moscovitas e visitantes da capital Russa, em razão de uma monumental estátua erigida a ele recentemente perto do Kremlin, é reconhecido por ter introduzido o Cristianismo ao seu povo no séc. X. A avó de Vladimir, a Princesa Olga, também recebeu o batismo Cristão, mas isto foi mais como uma iniciativa privada do que uma política estatal.

Não obstante seu passado pagão (antes de tornar-se Cristão, Vladimir folgava-se com a guerra e os banquetes, assim como com numerosas esposas e concubinas) e apesar do contexto político de sua conversão (adotando a religião da sua noiva, a princesa Bizantina Ana, que certamente melhorou sua imagem aos olhos do seu irmão e possível imperador aliado Basílio II), esta experiência de ter sido atraído precisamente pela beleza do culto Ortodoxo é válida para inúmeras pessoas que tomaram a conscienciosa decisão de unirem-se à Igreja Ortodoxa.

É certamente verdadeiro em meu caso. A primeira vez que entrei em uma igreja Ortodoxa Russa foi em Setembro de 1984, quando eu havia chegado na cidade provinciana de Voronezh com cerca de outros vinte alunos Britânicos para imergir-nos por dez meses na língua Russa, como parte do nosso curso de graduação. Um dos meus dois favoritos escritores Russos é Fiódor Dostoiévski (sendo o outro Nikolai Gogol) e apenas por curiosidade eu decidi visitar a Igreja que inicialmente parecia-me tão exótica e radicalmente diferente tanto da Igreja Católica quanto das várias denominações Protestantes, aquela que tanto influenciara a obra Dostoiévski, teológica e filosoficamente.

Embora, talvez, não tão dramática quanto a dos emissários Russos de mil anos atrás em Constantinopla, minha impressão do culto Ortodoxo foi, todavia, poderosa e duradoura. Foi aquilo que em Grego é chamado de kairos, aquele momento no tempo em que de repente vem uma uma percepção penetrante, uma compreensão instintiva de pertença. Admito, eu entendia pouco do simbolismo e das ações litúrgicas daqueles sacerdotes barbudos e bem aparamentados, não entendia nem mesmo as palavras do coro desacompanhado. Certamente, o canto majestoso , o aroma de incenso e as cores radiantes dos ícones e das vestimentas feitas para contrastar drasticamente com a cinza e parda realidade da arquitetura da era Soviética no lado de fora.

Contudo, aquilo que mais havia me atingido era uma sensação de comunidade na adoração. Em cima, estendendo-se até os céus, estava a iconóstase com suas imagens não apenas de Cristo e da Virgem Maria mas também de numerosos santos que compartilham da eterna e celestial glória com eles. Em baixo estava a aglomerada massa de, principalmente, mulheres idosas, mas também alguns jovens homens, persignando-se repetidamente, todos com suas faces voltadas para o santuário e iconóstase. Ainda assim, estes dois elementos – os santos desenhados na tela de ícones e os fiéis em baixo – pareciam compor um todo absoluto, a Igreja triunfante e a Igreja militante, um “céu na terra”.

Até o dia de hoje eu não posso dar um conselho melhor às pessoas interessadas na Ortodoxia do que simplesmente estarem presentes na liturgia da Igreja Ortodoxa, para que elas possam obter um senso daquela unicidade dos crentes unidos no Corpo de Cristo. Enquanto eu permanecia naquela igreja lotada, as pessoas repetidamente tocavam em meus ombros pedindo para que eu passasse suas velas até Cristo, a Mãe de Deus, São Nicolas, São Mitrofanes (o santo da cidade) e outros santos. Levou um tempo para eu entender que deveria passar a vela até a candeia diante do ícone do santo. Para os Cristãos Ortodoxos Russos, os santos não são figuras remotas, mas amigos íntimos e vivos, cuja intercessão pedimos para diante de Deus.

Quando deixei a Igreja naquele dia, eu quis aprender mais, mas aquilo foi em 1984, um tempo na União Soviética em que a Igreja Russa vivia em um gueto social, ou ignorada pelas autoridades estaduais ou representada pela propaganda anti-religiosa como um bastião da superstição e do obscurantismo. Na Páscoa, a principal igreja da cidade era cercada por ativistas Komsomol para desencorajar as pessoas de entrarem. Não havia lojas de livros eclesiásticos ou bibliotecas das igrejas. A Igreja não podia engajar-se abertamente em obras de caridade ou de educação – tudo isto viria a acontecer muito tempo depois. Eu tive que conter-me com conversas furtivas com outros crentes para descobrir o que a Igreja significava para eles.

Pelo resto da minha permanência de dez meses em Voronezh eu frequentei a mesma igreja, copiando em um caderno, num certo ponto, as palavras do Credo e da Oração do Senhor (Pai Nosso), dispostas em relevo no lado de fora das paredas da igreja, em belas letras da antiga língua Eslava Eclesiástica, para que pudesse melhor orientar-me nas liturgias.

Foi somente pouco antes de deixar Voronezh que eu eventualmente consegui falar com um verdadeiro padre Ortodoxo Russo chamado Padre Daniel, que me advertir a entrar em contato com o chefe da diocesa Ortodoxa Russa na Grã-Bretanha, Metropolita Anthony Bloom. Fui convidado a uma seguinte conversa com o Padre Daniel, mas quando eu compareci fui avisado por funcionários da igreja que sob nenhuma circunstância ele poderia ver-me novamente. Alguém nos “órgãos” havia obviamente tido uma palavra com ele sobre conversar com estrangeiros.

Então, foi de volta na Inglaterra que eu devorei o máximo de livros que podia sobre a doutrina da Igreja Ortodoxa, mais especialmente o clássico de 1963 de Kallistos Ware, o livro A Igreja Ortodoxa (minha velha cópia surrada da qual faço menção enquanto escrevo este artigo!), e agora, sendo suficientemente fluente na língua Russa, posso ler livros teológicos em Russo que, infelizmente, não eram tão acessíveis então para os Russos comuns.

Eventualmente uni-me à Igreja Ortodoxa Russa, quando em Oxford eu era um estudante de pós-graduação. Eu não descreveria-me como um “convertido” à Ortodoxia (ou como os Russos falantes do Inglês jocosamente referem-se a eles, um “envelope”, palavra que em russo é “konvert”), na medida em que a Igreja Ortodoxa e, especialmente, a Igreja Ortodoxa Russa foi e permace sendo meu único lar espiritual.

Assim como muitas pessoas da minha geração, eu fui crismado na Igreja da Inglaterra, mas era uma igreja que eu apenas frequentava em casamentos e funerais. Criado em Manchester, não posso lembrar-me de um tempo em que eu não tenha sido um crente, mas foi na Igreja Ortodoxa na Rússia que esta crença encontrou uma expressão articulada. De fato, eu diria que ser um membro da Igreja Ortodoxa Russa permitiu-me ver minha própria herança Cristã Inglesa de uma forma mais profunda e apreciativa.

No verão de 2015 eu visitei os santuários de dois dos maiores santos Anglo-saxões, Cuteberto e o Venerável Beda, na Catedral de Durham. Os sentimentos que experimentei lá não foram diferentes daquelas numerosas visitas até o santuário de São Sérgio de Radonezh no mosteiro dedicado a ele, localizado uns sessenta e cinco quilômetros ao nordeste de Moscou. Em ambos lugares eu senti-me igualmente impressionado e em casa, na companhia daqueles que laboraram por Cristo e por Sua Igreja.

Meu primeiro encontro com a Ortodoxia Russa foi cerca de trinta anos atrás, e isto me conduziu na direção de tornar-me um sacerdote Ortodoxo na Rússia após o colapso do comunismo no começo dos anos noventa. Pelo caminho, eu tive mais de um kairos, mais de um momento definidor na minha jornada de fé, em encontros com pessoas e eventos.

Para muitos pode parecer uma escolha idiossincrática, especialmente para aqueles que sabem a respeito da Igreja Ortodoxa Russa apenas através do prisma da cultura política na qual ela agora vive e opera. Entretanto, eu prefiro comparar a vida da Igreja Russa com aquela do Oceano: na superfície pode parecer por vezes calmo, por vezes tempestuoso, tornando a jornada turbulenta, mas em suas profundezas existe uma harmonia espiritual que não pode ser facilmente observada externamente.

A Igreja Russa tem suas imperfeições, certamente, assim como todas as organizações em um nível puramente humano, mas ela é um lar e uma família, meu lar e minha família: uma família para não ser esquecida. Para aqueles que queiram conhecer a vida da Igreja Russa em um nível mais profundo, é suficiente seguir as simples palavras do Evangelho que me levaram até onde estou hoje: “Vem e vê” (João 1:39)


Fonte:  moscowexpatlife.ru

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