Cisma Ucraniano: O que os Leigos na América Podem Fazer?

"Eu espero completamente que esta crise fique muito pior antes de melhorar. Eu espero que ela se torne um problema prático para todos os Cristãos Ortodoxos de toda parte, e penso que ignorá-la é uma forma inconsciente de minimizar um problema sério".

A Batalha de Salamina

Eu recebi recentemente um e-mail com alguns questionamentos práticos sobre como as pessoas devem lidar com as implicações da confusão criada pela incursão de Constantinopla no território canônico da Igreja Russa e seu acolhimento de cismáticos impenitentes e não ordenados da Ucrânia:

""Eu tenho acompanhado a crise eclesiástica sobre a Ucrânia desde seu começo. À medida que a crise piora, o fato de que ela afeta a vida Ortodoxa aqui na América do Norte tem me causado uma crescente preocupação. O senhor poderia, por gentileza, formular algum conselho para os Cristãos Ortodoxos que desejam evitar envolvimento com  os cismáticos?
Creio que os cismáticos Ucranianos são verdadeiramente cismáticos, que seu "clero" são indivíduos sem ordenação, e que qualquer pessoa da Igreja canônica que comunga ou celebra com os cismáticos merece estar sob as penalidades canônicas prescritas.
Todavia, estou ciente de clérigos de jurisdições canônicas que apoiam abertamente os cismáticos, incluindo um diácono da IOA (Igreja Ortodoxa na América) que escreve para o blog Fordham. De que forma um Cristão Ortodoxo como eu devo agir diante de tais clérigos? Como eu deveria fazer se visitasse uma paróquia canônica em algum lugar para participar do serviço, e um clérigo, repentinamente, edossasse os cismáticos durante o rito?Por exemplo, o Patriarca Teodoro que comemorou Dumenko enquanto servia no Chipre.
Outra questão complicada é que o Sr. Dumenko, o autoproclamado "Metropolita Epifânio", esteve nos Estados Unidos em Outubro e concelebrou com um sacerdote da AOG (Arquidiocese Ortodoxa Grega da América) na catedral da AOG, na Cidade de Nova York. Durante o serviço, o Sr. Dumenko realizou uma cerimônia para "ordenar" um homem chamado George Kazoulis como diácono, e Kazoulis agora serve como diácono em algum lugar sob a AOG. Até onde sei, Dumenko não recebeu as santas ordens e não pode transmitir aquilo que ele não possui.
O que acontece durante os ritos concelebrados por clérigos canônicos juntamente com um homem que não é bispo? O que acontece durante os serviços em que um homem como Kazoulis serve como um diácono? O que os Cristãos Ortodoxos devem fazer ao se depararem inesperadamente em um serviço como esse? Nesse sentido, o que aconteceria se Kazoulis fosse ordenado um sacerdote sob o pretexto de já ser um diácono?
Me desculpe por ter enviado uma série de perguntas de uma vez só, mas eu realmente não sabia o que ou para quem mais perguntar, e pensei que se o senhor pudesse responder, talvez isso pudesse servir como uma publicação para o blog, ajudando assim muitas pessoas. Há uma desapontante falta de conselhos práticos das jurisdições canônicas. Até mesmo a ROCOR (Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia) tem se manifestado pouco nestes dias, exceto que dizem para mantermos distância de sacerdotes e igrejas que tenham desertado para a AOG.


Eu espero completamente que esta crise fique muito pior antes de melhorar. Eu espero que ela se torne um problema prático para todos os Cristãos Ortodoxos de toda parte, e penso que ignorá-la é uma forma inconsciente de minimizar um problema sério".

O cisma que foi iniciado pelas ações não canônicas do Patriarca de Constantinopla criou uma crise no mundo Ortodoxo. Penso que nós apenas começamos a ver o quão pior as coisas provavelmente ficarão. Contudo, nós também precisamos crer que Deus está em Seu trono, e que se nenhum pardal cai sobre a terra sem a permissão de Deus (Mateus 10:29). Então, certamente Ele irá operar Sua vontade nesta crise, apesar de parecermos rodeados por traição contra a Fé, covardice e engano. Por um lado, encaramos problemas que nunca pensávamos que havia dentro da Igreja, mas por outro, Deus está usando esta crise, creio, para podar Sua vinha.

Esse é o problema imediato que alvoroçou as coisas no cisma na Ucrânia, mas existem muitos outros fatores agindo aqui. Temos visto há muito aqueles que defendem a agenda Ecumenista na Igreja. Há também uma agenda renovacionista sendo advogada, que começou com coisas como permitir sacerdotes a contrair um segundo casamento, mas que foi além deste ponto. Temos agora um número cada vez maior de vozes, especialmente de dentro do Patriarcado Ecumênico, mas de forma alguma limitadas a essa Igreja, que estão defendendo a aceitação da homossexualidade, do transgenerismo e toda uma vasta gama de outras perversões.

Por exemplo, cinco anos atrás tivemos o caso de Gregory Pappas, do Pappas Post, que reclamou publicamente que um sacerdote Ortodoxo Grego se recusou a dar comunhão a ele pelo fato de ser um homossexual ativo. Em sua reclamação, não há nada que sugira que ele está lutando contra seu pecado, apenas uma justificação de seu pecado - de fato, há uma negação de que isso seja mesmo um pecado. Todavia, a parte mais triste dessa história é que, conforme ele relatou, o Metropolita Savas de Pittsburgh disse a ele que, embora o sacerdote estivesse "tecnicamente dentro de seus direitos canônicos" ao recusar dar comunhão, ele (o Metropolita) daria comunhão, e que outros sacerdotes se ofereceram para o mesmo fim. Tudo isso foi feito público e não houve ninguém que o desmentisse, ou ainda, clarificações da parte do Metropolita Savas, até onde sei.

Um sacerdote Ortodoxo Grego me contou uma vez que, na Metrópole de Chicago, eles foram orientados a não recusar homossexuais ativos que desejassem receber comunhão, e que na semana passada isso foi confirmado em uma publicação durante a reunião mais recente do clero daquela Metrópole:

"Na segunda feira, dia 18 de novembro, durante uma reunião clerical da Metrópole de Chicago, Sua Eminência Metropolita Natanael vigorosamente instruiu seus sacerdotes que eles já não mais tinham permissão para anunciar os parâmetros para o recebimento da Santa Comunhão em nenhuma instância antes de sua distribuição, mesmo em celebrações festivas como a Páscoa e o Natal, quando uma multidão de pessoas desconhecidas se encontram na Igreja.
Natanael disse que ele sabia que seus sacerdotes estavam fazendo isso. Ele mesmo tinha ouvido sobre fazerem tais pronunciamentos e leu isso em seus boletins e websites. Ele decidiu que já não mais permitiria isso!
Natanael, um profundo teólogo bem conhecido e um mago pastoral, explicou que se São João Crisóstomo, 'o autor da Divina Liturgia' (ah... não...) quisesse que tal pronunciamento fosse feito antes da distribuição da Santa Comunhão, então ele teria incorporado isso no próprio serviço. Do que jeito que está, o único "pronunciamento" é de que as pessoas se aproximem com 'temor de Deus, fé e amor'. Uma vez que o bendito Patriarca de Constantinopla não incluiu outras advertências, os sacerdotes da Metrópole de Chigaco estavam, de agora em diante, proibidos de dizer nada mais do que aquilo. Portanto, desde o dia 18 de novembro de 2019, a Santa Comunhão está OFICIALMENTE ABERTA na Metrópole de Chicago. Nenhum pronunciamento público descrevendo quem não deve se aproximar do Cálice será permitido... danem-se os Cânones.
Natanael explicou que o clero não tem o direito de desincentivar ninguém de se aproximar do Cálice, afinal, ele disse, proibirmos as pessoas nos faz 'parecer fanáticos'.


Ele explicou ainda que se uma pessoa é dita para não se aproximar do Cálice para receber a Santa Comunhão porque ele/ela está envolvido em um comportamento pecaminoso que, conforme a LEI CANÔNICA, requer a proibição de sua participação, eles podem acabar não voltando para a Igreja. Ele lembrou aos sacerdotes que nós não queremos desincentivar as pessoas de vir à Igreja (Veja: 'Natanael Anuncia a Comunhão Aberta na Metrópole de Chicago)".

Sua Eminência faria bem em ler a homilia de São João Crisóstomo que é lida poucos dias antes da Páscoa:

"Ó, meus amados e muito estimados irmãos que reuniram-se na Santa Igreja de Deus a fim de servir ao Deus Vivo em santidade e justiça, e, com temor, participar dos santos, puríssimos, imortais e maravilhosos Mistérios de Cristo: Ouvi-me, eu que sou pobre e indigno. Pois não sou eu quem vos falo e vos instruo; antes, a graça do Santíssimo e Vivificante Espírito; pois não falo de mim mesmo mas, conforme fui instruído pelos cânones divinos e pelos Teóforos Pais, conforme a Igreja recebeu instrução dos divinos Apóstolos, que receberam sua sabedoria de Deus, assim falo, eu que sou pobre e o menor de todos.
Não conheço vossas obras; desconheço aquilo que tendes feito; portanto, como um que teme a Deus, aconselho todos dentre vós, quer seja homem ou mulher, quer seja grande ou pequeno, a qualquer um de vós que seja culpado de pecado, condenado por seus próprios pensamentos, é necessário que primeiro arrependei-vos e confessai vossos pecados, para que possais ousar, considerando-vos indignos de aproximar-se e de tocar na próprio Fogo Divino. Pois o nosso Deus é um Fogo consumidor, e aqueles, portanto, que desejam aproximar-se com fé e temor do Deus, Rei e Juiz de todos nós, devem queimar e cauterizar seus pecados; e Ele iluminará e santificará suas almas. Contudo, Ele incendiará e queimará com vergoha as almas e os corpos daqueles que aproximam-se com descrença.
Portanto, muitos dentre vós estão doentes e adormecem na doença, isto é, muitos morrem inconfessos e impenitentes. Além disso, meus irmãos, eu vos exorto e digo: Nenhum que faça juramentos, nem o pérjuro, nem o mentiroso, nem o que vê falta nos demais, nem o fornicador, nem o adúltero,  nem o homossexual, nem o ladrão, nem o bêbado, nem o blasfemo, nem o que inveja seu irmão, nem o homicida, nem o feiticeiro, nem o mago, nem o encantador, nem o que rouba, nem o Maniqueu, devem, inconfessos e não preparados, aproximarem-se, tocar ou achegar-se dos terríveis Mistérios de Cristo, pois é coisa terrível cair nas mãos do Deus Vivo. Pois a Palavra de Deus é mais afiada do que qualquer espada de dois gumes, perfurando até as juntas, medulas e ossos, aos pensamentos e corações.


Vede, portanto, meus irmãos, que ninguém aproxime-se impenitente e não preparado, ou indignamente, para participar de Seus terríveis e puríssimos Mistérios. Pois que Ele mesmo disse: "Eu sou Ele e não há nenhum deus além de mim; eu mato e faço viver; ninguém há que possa livrar de Minha mão; pois que Eu, Eu mesmo, sou Rei eternamente: A quem é a glória, honra e adoração - ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo, agora e para sempre, e pelos séculos dos séculos, amém" (Homilia para a Quinta-feira Santa. VerThe Great Book of Needs, Volume II, Editora do Seminário de São Tikhon, 1998, pp. 332-333).

Dado o suporte que a Arquidiocese Grega fornece a publicações como "Public Orthodoxy", que incessantemente promove e aceita a perversão dentro da Igreja, isso não deveria ser um choque para ninguém. Isso é o fruto de quase um século de desvios espirituais da parte do Patriarcado de Constantinopla, dos quais falou São João de Xangai, em 1938, em um anúncio para o 2º Concílio de Toda a Diáspora. Pode ser que o arrependimento faça Constantinopla voltar atrás, mas não é provável que aconteça no futuro próximo, se é que acontecerá.

Portanto, a fim de obter as respostas práticas que você busca aqui, temos que permanecer no caminho real entre os extremos, não se voltando nem para direita, nem para a esquerda. Na história da Igreja, houve heresias e cismas. Muitas vezes as heresias eram preparadas por longos períodos de tempo, e as vezes levavam séculos para que essas heresias fossem completamente liquidadas, ou que aqueles que se recusavam a serem corrigidos fossem, por fim, postos completamente para fora da Igreja. Durante tais períodos de controvérsia, as demarcações não eram claras e as coisas estavam em desordem.

São Basílio, o Grande, compara tais períodos a uma batalha naval:

"A que se assemelha a situação atual? Assemelha-se um pouco a um combate naval que, devido a antigos conflitos, travaram povos belicosos, e amantes da luta, veementemente encolerizados uns contra os outros. Peço-te que olhes o seguinte quadro: de cada lado a frota avança terrível para atacar; depois, com incontido clamor de cólera, lançam-se uns sobre os outros em enérgica luta. Imagine que um violento turbilhão dispersa as naves, e densa escuridão, proveniente das nuvens, encobre a visão, de forma que não se distinguem mais amigos e inimigos, tornando-se irreconhecíveis nesta confusão as insígnias das duas partes. Acrescentemos ainda ao quadro, para fazê-lo mais vivo, o mar encapelado e revolto, chuva impetuosa caindo das nuvens, espantosa borrasca, provocada por enormes vagalhões. Em seguida, os ventos de todos os pontos concentrados num só lugar, fazem com que toda a esquadra entre em colisão. Dentre os combatentes, uns atraiçoam e passam para o campo do adversário mesmo durante o prélio; outros se veem forçados simultaneamente a repelir os barcos, arrastados contra eles pelos ventos, e a marchar contra os assaltantes e se massacrarem uns aos outros na sedição proveniente da malevolência contra os superiores e da ambição de cada qual de tomar o poder.


Pensa ainda no ruído impreciso e confuso do mar, no barulho do turbilhão dos ventos, no entrechoque dos navios, no embate das ondas, nos gritos dos combatentes, clamando contra os acidentes que os afligem, de sorte que nem se ouve a voz do comandante, nem a do piloto e instalam-se terrível desordem e confusão. Os males excessivos acarretam, com a desesperança de viver, desenfreada liberdade de pecar. Acrescenta a tudo isso uma inacreditável mania de glória, a tal ponto que já o navio naufraga e a equipagem não renuncia à disputa pelo primeiro lugar" (Sobre o Espírito Santo, Cap. XXX).

Não devemos ser indiferentes a essas questões e tampouco devemos tomar a posição de "armadilha" dos cânones, assumindo que todos no Patriarcado Ecumênico já se encontrem fora da Igreja por causa das ações de seus líderes.

O que um leigo deve fazer sob as circunstâncias de hoje? Muito depende de qual paróquia alguém se encontra, e quais sejam suas opções. Há muitos sacerdotes dentro da jurisdição de Constantinopla que eu conheço que são devotos e firmes na Fé. Se eu fosse um leigo em uma dessas paróquias, eu certamente não tomaria nenhuma decisão apressada, especialmente se não houvesse nenhuma opção melhor na área em que eu moro. Contudo, é difícil ver por quanto mais tempo os sacerdotes fiéis serão permitidos a continuarem assim, devido ao tipo de instruções que eles têm recebido de seus bispos.

Eu digo que não se deve participar absolutamente de nenhum serviço no qual um cismático Ucraniano, ou qualquer pessoa ordenada por ele estiver servindo. À medida que o tempo passar, essa será uma demarcação cada vez mais difícil de traçar dentro do Patriarcado Ecumênico, devido a tais ordenações, como aquela que você mencionou, que evidentemente foi feita de maneira a forçar os Americanos a aceitarem este cisma, quer queiram, quer não.

Uma coisa que penso que todos nós devemos evitar é permitir que alguém defina essa crise em termos de ser apenas um conflito entre Russos x Gregos. Isso não se trata de etnicidade, mas da Ortodoxia. Isso não se trata de Russos x Gregos, mas de Ortodoxia x heresia e cisma. Eu conheço muito Gregos que permanecem pela Fé e conheço Russos que não.

Cada um deve olhar para sua própria consciência e rogar que seu anjo da guarda fale à sua consciência. Todos também devem buscar conselhos sábios no que diz respeito a suas circunstâncias particulares e orar a Deus que os mostre o caminho, e então eles tomarão o caminho mais sábio de acordo com suas consciências. Eles devem ainda orar a Deus para que os corrija, se eles tiverem se desviado do caminho.

Existe um provérbio Chinês, que eu penso ser bom e sábio: "Um coelho sábio tem três tocas". Eu penso ser sábio para aqueles sob o Patriarcado Ecumênico, ou sob qualquer outra jurisdição cujo bispo demonstra sinais de oscilação quanto à Verdade, ao menos contemplarem suas alternativas agora e manterem suas opções viáveis.

Uma coisa é certa, se Constantinopla não se corrigir, todos na Igreja terão, por fim, que tomar uma posição contra o que ela faz, ou aceitar a crescente apostasia que vemos desabrochar.

Se a situação ficar crítica, obviamente será necessário mudar-se para uma paróquia defenda a verdade. Isso pode significar outra paróquia no final da rua, ou pode significar uma paróquia que está longe, ou ainda realizar os serviços de leitura em casa, caso for inviável se deslocar até uma paróquia.