“Isso Significa que Você Não é um Demônio”

O Pe. Andrei foi designado para a Igreja da Proteção do Véu da Mãe de Deus logo após sua ordenação. Ele estabeleceu boas e até mesmo amigáveis relações com seu reitor, o Pe. Genádio. Este valorizava a assiduidade, a industriosidade e a habilidade do jovem sacerdote de ser amável e prestativo com todos. O Pe. Andrei não somente tomou para si a responsabilidade de ministrar as aulas da escola dominical para as crianças, mas também organizou ensino religioso para os adultos. Ele frequentemente ficava após o término dos serviços, falando com as pessoas e respondendo todos os tipos de questionamentos, tanto doutrinários como seculares. Os paroquianos logo passaram a amar o Pe. Andrei.

Eles logo buscaram seu conselho e confessavam seus pecados a ele. Mesmo muitos dos filhos espirituais do Pe. Genádio começaram a ir até o Pe. Andrei para se confessarem. O reitor levou tudo numa boa e não sentiu inveja do jovem sacerdote. Ele estava na realidade feliz de ter um novo e bom assistente em quem pudesse sempre confiar todas as coisas.

Todavia, o estado de humor da regente do coro Zinaida Dmitrievna era turbulento. "Como pode ser?", ela estava exasperada. "Ele tem estado aqui a pouquíssimo tempo, mas já cativou os filhos espirituais do reitor". Ela via os méritos do Pe. Andrei e até mesmo lia secretamente sua poesia (que era publicada por seus amigos em livretos de baixa circulação). Contudo, ela se desgostou fortemente dele, embora ela apreciasse sua poesia, sua civilidade (algo que muitos poucos jovens têm) e sua completa ausência de orgulho em contraste com suas numerosas virtudes. Ela possuia uma razão óbvia para sua aversão. Um dia, o Pe. Andrei disse que ele preferia o canto Znamenny.1 Ela havia cantado canto polifônico por toda sua vida e era insuportável para ela ouvir elogios ao canto monofônico. O coro que ela regeu por muitos anos cantava hinos com algumas adições que ela mesma compusera. Ela se considerava uma reformadora moderada e se orgulhava de ter a reputação de ser uma compositora da Igreja em alguns círculos. Contudo, como um raio dos céus, agora ela lidava com as críticas de algo com o qual ela sempre conviveu. E elas vinham de alguém que era três anos mais jovem do que seu neto, muito embora alguns dos que criticavam o canto polifônico também fossem seus colegas. Tendo sido condecorada com a Ordem da Princesa Olga Igual-aos-Apóstolos, ela seguiu o caminho de servir a Igreja Ortodoxa em um período em que aqueles críticos ainda se sentavam ociosamente nas reuniões do Partido Comunista (dizendo que "não havia Deus") e ainda antes que alguns deles tivessem nascido. Esses críticos não deviam agir livremente, algo devia ser feito, pensou ela...

Ela partiu, portanto, para a ação. Todos os dias ela ia até o reitor com reclamações sobre o Pe. Andrei. Os pretextos eram superficiais e simplesmente absurdos. Logo o Pe. Genádio ficou enfastiado dessas reclamações. Durante seu tempo ele havia sofrido muito por causa de denúncias e não podia suportar fofoqueiros, mas não podia fazer nada com um mulher idosa que era a regente mais velha da diocese. Ele mesmo teve dificuldade em tolerar suas "performances solo", com as quais ela "embelezava" os serviços festivos. Ele frequentemente notava brincando que uma igreja e um teatro de ópera eram duas coisas diferentes. Todavia, Zinaida Dmitrievna fingia não lhe dar ouvidos, crendo que aquilo não se aplicava a ela, continuando a preencher o espaço da igreja com seu canto, alcançando notas tão altas que a congregação permanecia atônita em terror. As vezes parecia ser um galo cantando, outras vezes parecia que sua alma saia voando, tamanho era o esforço vocal excessivo.

O Pe. Andrei sabia que a regente do coro estava reclamando dele o tempo todo. Ele não sabia como fazer as pazes com ela, como acalmar essa mulher que simplesmente não gostava dele. Um dia, após um serviço dominical, ele trouxe um bouquet de flores - crisântemos - até ela. Quando ele começou a dizer o quanto ele estimava seus esforços e que não havia mais ninguém em toda a diocese que houvesse trabalhado tanto na vinha de Cristo tão gloriosamente, ela repentinamente começou a chorar:

"Eu conheço a linguagem das flores. Você quer me tirar da igreja. 'Os Crisântemos no jardim há muito pereceram'.2 Não conte com isso...".

Eles acalmaram-na com grande dificuldade. O Pe. Andrei concluiu que qualquer ação de sua parte que objetivasse uma reconciliação seria interpretada como uma tentativa de ofensa pela pobre senhora do coro. Portanto, ele começou a evitá-la: ele não ia até o refeitório quando Zinaida estava almoçado lá e ao notá-la de uma certa distância ele parava e dava meia-volta. Isso não passou despercebido e foi interpretado quase como uma declaração de guerra.

Foi então que a "Madame regente do coro" (como o Pe. Andrei a chamava consigo mesmo) decidiu dar o golpe final contra aquilo que ela considerava ser um "crime óbvio". O fato é que de tempos em tempos, durante a leitura do Evangelho o Pe. Andrei pronunciava incorretamente a ênfase de algumas palavras em Eslavônico. De lei, ele corrigia a si mesmo imediatamente, embora as vezes ele continuasse sem notar seus erros.

Isso sempre fazia com que a Zinaida se lamentasse por ele. O reitor ouvia a mulher sem expressar qualquer emoção, dizendo que assim que o culto sacerdote ganhasse experiência o suficiente, ele deixaria de cometer erros.

Um dia, após a Divina Liturgia e um serviço de oração da festa patronal, os paroquianos se reuniram no refeitório. Todos estavam de uma alegre disposição de mente.  Eles estavam esperando o reitor abençoar a comida. Enquanto isso, Zinaida Dmitrievna entrou com tudo no escritório do Pe. Genádio, que estava organizando as flores que eles havia recebido para a festa:

"Padre, o que iremos fazer com o Pe. Andrei? Ele cometeu dois erros até mesmo na festa! O senhor sabe que os demônios se alegram quando alguém comete erros enquanto lê o Evangelho. Eu não posso suportar mais. Eu me entristeço e choro todas as vezes. O que iremos fazer?!"

O Pe. Genádio colocou um maço de rosas vermelhas em um vaso de vidro, tornou seu olhar e contemplou carinhosamente a mulher chorosa:

"Vamos dar graças por isso".

"Vamos!" Disse Zinaida dando um suspiro.

"Você disse que os demônios se alegram quando alguém comete erros ao ler o Evangelho".

"Sim, eles se alegram".

"Mas você se entristece e chora".

"Sim, eu choro".

"Bem, o que posso dizer? Isso significa que você não é um demônio"!"

A porta do escritório havia sido deixada entreaberta ao longo da conversa, e o Pe. Andrei com os paroquianos que vieram para parabenizar o Pe. Genádio pela festa ouviram tudo por detrás da porta. Muitos pessoas começaram a dar gargalhadas. O Pe. Andrei pensou que Zinaida estivesse ofendia e decidiu ir consolá-la. Todavia, quando entrou no escritório, ele ficou maravilhado de ver que ela estava a rir. Ainda rindo, ela se dirigiu até ele, se prostou e pediu por sua benção pela primeira vez:

"Foi assim que o inimigo me fez ir contra você", disse ela enquanto limpava suas lágrimas. "Me perdoe. Verdadeiramente, o Pe. Genádio me fez voltar à razão. Eu espero que você não tenha dúvidas de que eu não sou um demônio!"

Naquela mesma tarde o Pe. Andrei deu a ela alguns CDs de canto Bizantino, cantados por cantores Gregos e por monges Athonitas.

Depois, durante a festa da​ Natividade, o coro de Zinaida Dmitrievna cantou alguns hinos em canto Znamenny pela primeira vez.

Alexander Bogatirev

Traduzido por Dmitry Lapa

Pravoslavie.ru

23/12/2019