Origem, Tradição e uso do Cordão Ortodoxo (Parte II)

A Oração em Ação: Como utilizar o cordão na oração

Em primeiro lugar, uma observação importante se faz necessária. Neste capítulo não é apresentada um regra definitiva sobre o uso do cordão de oração ortodoxo, uma vez que ele é suficientemente versátil para abrigar muitos métodos. Mais importante é o fato de que uma regra de oração somente deve ser dada pelo pai espiritual eleito pelo orante, que conheça bem as disposições do seu filho, as necessidades e batalhas espirituais que este enfrenta. Portanto, o conselho do autor deste ensaio a todos aqueles que nele buscam algum tipo de informação sobre o cordão de oração ortodoxo é que busquem com todos os esforços um bom pai espiritual.

Esta necessidade não se resume apenas à prática da oração, mas a toda vida do fiel na Santa Igreja Ortodoxa. O pai espiritual não é somente um professor, mas um amigo, um confidente e um conselheiro, capaz de, pelo Espírito Santo, orientá-lo nas práticas que a Igreja Ortodoxa ensina para a evolução espiritual de cada um. Se não há nas imediações de sua residência uma Igreja Ortodoxa, considere que uma viagem periódica é um preço ínfimo a pagar pelo benefício que o zêlo de um bom pai espiritual pode trazer.

Por fim, os métodos aqui apresentados são meramente ilustrativos e calcados em métodos já aplicados e tradicionais. O diferencial de cada método consiste nas orações iniciais, intermediárias e finais, deixando os nós para a Oração de Jesus, sem alterar a mais pura Tradição do cordão de oração ortodoxo.

Método 1 - Rezando para si mesmo

Na Cruz: + Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!
                + Santo Deus, Santo Poderoso, Santo Imortal, tem piedade de nós!
                + Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém!

No nó principal: Pai Nosso e Hino à Virgem Mãe de Deus.

A cada nó: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!”

A cada separador: “Mãe de Deus, intercede por mim, pecador!”

Ao final, no nó principal: Profissão de Fé Niceno-Constantinopolitana, Intercessão aos Padres

Além do método de oração adotado, devemos sempre que possível realizar nossas orações no mesmo horário e no mesmo local, preferencialmente diante de um ícone de Jesus Cristo ou da Mãe de Deus e, se possível, com uma lamparina acesa.

Ainda, o uso do cordão de oração ortodoxo trouxe uma série de costumes, que variam de região e comunidade. O mais comum tem origem nas comunidades monásticas, onde se leva o cordão de oração atado ao pulso esquerdo. Outro costume muito forte é o de mantê-lo sob o travesseiro durante o sono. Pendurá-lo na porta de entrada ou na parede de ícones é também comum.

Algumas pessoas solicitam ao sacerdote deixá-lo sob a Santa Mesa durante os dias em que Nosso Senhor foi morto e sepultado, recuperando-o novamente quando é comemorada a ressurreição de Cristo. Pode-se também, em outras épocas do ano, solicitar ao sacerdote que abençoe o cordão de oração ou tocá-lo nas santas relíquias da Cruz ou dos Santos, quando disponibilizadas para veneração.

Utiliza-se o cordão de oração abençoado para abençoar a família, o lar e o alimento, visto que o chefe da família tem prerrogativas para rogar as bênçãos de Deus sobre aqueles que estão sob sua responsabilidade, sempre usando fórmulas simples como: “Abençoa, Senhor Jesus Cristo, (a minha casa / a minha família / o nosso alimento / etc...) e tem piedade de nós!”.

Independente do uso ou das práticas que escolhemos para utilizar o cordão de oração ortodoxo, devemos sempre tomá-lo com todo o respeito e cuidado de um objeto sagrado, e não um brinquedo ou talismã. Ou seja, não devemos utilizar o cordão de oração ortodoxo para outro fim que não seja a oração e nem devemos supor que ele tem “poderes” por si só. As virtudes que podem estar contidas no nosso cordão de oração são as mesmas de qualquer outro objeto abençoado e tratado com o devido respeito.

Considerações Finais

Este ensaio sobre a origem, tradição e uso do cordão de oração ortodoxo é o resumo de uma pesquisa realizada durante dois anos, desde que aprendi a arte de como confeccionar este instrumento de rara beleza e profundidade espiritual. Estou trabalhado num manual completo ensiando esta arte, que será publicado em breve.

A principal motivação para escrever este trabalho foi desmistificar o que muito tem sido falado sobre o cordão de oração ortodoxo em nosso idioma por vários segmentos não ortodoxos, proliferando conclusões controversas e privando àqueles que são verdadeiramente interessados as belas tradições, o verdadeiro simbolismo e a história deste instrumento que traz em si mais de mil e setecentos anos de tradição, além de uma teologia simples, clara e verdadeira.

É necessário frisar alguns pontos importantes sobre o cordão de oração ortodoxo:

  • O nome “Rosário” é um nome atribuído ao instrumento de oração da igreja romana apresentado por São Domingos. O termo “Terço” é uma designação moderna dada à terça parte deste instrumento, particularmente utilizado no linguajar popular brasileiro. A denominação “Terço Bizantino” ou “Rosário Bizantino” nunca teve lugar na tradição do cordão de oração ortodoxo, a despeito da época histórica coincidir com a origem do instrumento. A Igreja Ortodoxa não reconhece esta designação, sendo o cordão de oração ortodoxo reconhecido pelo seu nome grego (komboskini) ou russo (chotki);
  • O uso do cordão de oração ortodoxo é essencialmente uma prática privada, não servindo para a celebração de serviços ou orações públicas ou comunitárias, senão em comunidades monásticas de regra de oração comum;
  • O cordão de oração ortodoxo está intimamente ligado à Oração de Jesus, tal qual ensinada pela Tradição, tendo como fórmula específica “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!”. Utilizar “jaculatórias” cujo caráter é mais neurolinguístico que teológico é uma prática controversa, pois a oração realizada no cordão de oração ortodoxo não é uma prática de vã repetição, mas sim a invocação do Santo Nome de Jesus;
  • A prática do cordão de oração ortodoxo não envolve nenhum tipo de “meditação de mistérios”, sendo esta uma prática do rosário mariano da igreja romana.

Por fim, o cordão de oração teve origem na ortodoxia, mas é patrimônio do Cristianismo, independente do segmento, sendo acessível a qualquer cristão que tenha zêlo pela oração e temor pelo Santo Nome de Jesus, mas é necessário que se preserve certas verdades para que o ensinamento e a pesquisa sejam sempre corretas. Hoje em dia, o que se vê é a adaptação de Deus ao homem, e não do homem a Deus. Isso é um grave erro, pois onde já se viu a criatura sobrepujar o Criador? Assim, fica registrada uma contribuição em nome da preservação da Tradição.

Que Deus, pelas intercessões de Sua Mãe Santíssima, de São João, o Precursor e pelas orações dos Santos Padres abençõe ao amado leitor e ilumine seu entendimento para iniciar uma vida de oração verdadeira e frutífera no Santo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!


É possível acessar a Parte I deste artigo aqui.

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