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A Ciência Médica da Pornografia - O Vício Pode ser Desaprendido

"Todos os vícios envolvem mudanças à longo prazo, as vezes para toda a vida, no cérebro... Os homens em seus computadores vendo pornografia eram desconcertantemente como os ratos nas jaulas do Instituto Nacional de Saúde, pressionando a barra para receber uma injeção de dopamina ou seu equivalente. Muito embora eles não o soubessem, eles foram seduzidos até sessões de treino pornográfico que reuniam todas as condições necessárias para alterações plásticas do mapa cerebral. Uma vez que neurônios que disparam juntos, se ligam juntos, esses homens receberam quantidades massivas de prática para ligarem essas imagens nos centros de prazer do cérebro, com a atenção arrebatadora necessária para uma alteração plástica".

"Quanto aos pacientes que se tornaram envolvidos com pornografia, a maioria foi capaz de abandonar o vício uma vez que eles entenderam o problema e como eles estavam o reforçando plasticamente. Eles descobriram por fim que se sentiam novamente atraídos por suas esposas [...] quando eles entenderam o que estava acontecendo com eles, eles pararam [...]".

ATENÇÃO: Leitura Não Adequada Para Crianças! - O Dr. Norman Doidge é um doutor em medicina com especialidade em neuroplasticidade cerebral, e ele ajudou a expor informações que libertaram muitas pessoas de seus vícios da pornografia na internet. A seguinte história contém uma franca discussão a respeito de atos sexuais ilícitos. A discrição do leitor é recomendada.



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A libido humana não é uma intrincada e invariável necessidade biológica, antes, ela pode ser curiosamente inconsistente, facilmente alterada por nossa psicologia e a história de nossas experiências sexuais. Nossa libido pode ser também muito caprichosa. Muitos dos escritos científicos implicam o contrário e descrevem o instinto sexual como sendo um imperativo biológico, um brutamonte faminto, sempre exigindo satisfação - um glutão, não um gourmet. Todavia, os seres humanos são mais como gourmets e são atraídos para certos perfis e têm fortes preferências; ter um "perfil" nos faz adiar a satisfação até que encontremos aquilo que estamos procurando, pois a atração por um perfil é restritiva: a pessoa que é "definitivamente excitada por loiras" pode tacitamente rejeitar morenas e ruivas.

Dado que a sexualidade é um instinto, e instinto é tradicionalmente definido como sendo um comportamento hereditário singular à uma espécie, variando discretamente de um e outro membro, a variedade de nossos gostos sexuais é curiosa. Instintos geralmente resistem à mudanças e são tidos ter um claro, não negociável e intrincado propósito, tal como a sobrevivência. Todavia, o "instinto" sexual humano parece ter se libertado de seu propósito central - reprodução - e varia em uma escala desconcertante, assim como não acontece em outros animais, nos quais o instinto sexual parece se comportar e agir como um instinto. Nenhum outro instinto pode causar tamanha satisfação sem ter cumprido com seu propósito biológico, e nenhum outro instinto está em tamanho descompasso com seu propósito.

O amor também é notavelmente flexível, e sua expressão tem mudado ao longo da história. Muito embora falemos de amor romântico como o mais natural dos sentimentos, na realidade, a concentração de nossas esperanças adultas de intimidade, carinho e desejo em uma pessoa até que a morte nos separe não é comum a todas as sociedades e tem apenas recentemente na nossa se tornado generalizada. Por milênios, a maioria dos casamentos foram arranjados pelos pais por razões práticas.

Certamente, existem inesquecíveis histórias de amor romântico ligadas ao casamento na Bíblia, como no Cântico dos Cânticos, e ligadas ao desastre na poesia trovadora medieval e, mais tarde, em Shakespeare. Contudo, o amor romântico começou a ganhar aprovação social nas aristocracias e cortes da Europa apenas no séc. XX - originalmente entre um homem solteiro e uma mulher casada, tanto adúltero quanto não consumado, normalmente tendo um péssimo fim. Apenas com a disseminação dos ideais democráticos do individualismo é que a ideia de que amantes devem ser capaz de escolheres seus pares por si mesmos tomou posse e começou a ser vista gradualmente como completamente natural e inalienável.

É razoável perguntar se nossa plasticidade sexual está relacionada com a neuroplasticidade. As pesquisas indicam que a neuroplasticidade não é nem isolada dentro de certos departamentos no cérebro, nem confinada às áreas de processamento sensorial, motor e cognitivo que nós já exploramos. A estrutura cerebral que regula os comportamentos instintivos, incluindo o sexo, chamada de hipotálamo, é plástica como a amígdala, a estrutura que processa a emoção e a ansiedade. Enquanto certas partes do cérebro, tais como o córtex, podem possuir mais potencial plástico devido a presença de mais neurônios e conexões que podem ser alteradas, até mesmo as áreas não corticais demonstram plasticidade. Isso é uma propriedade de todo tecido cerebral.

A plasticidade também está presente no hipocampo (a área que torna nossas memórias de curto prazo em memórias de longo prazo), bem como em áreas que controlam nossa respiração, que processam sensações primitivas e dor. Ela existe na medula espinhal - como cientistas já demonstraram; o ator Christopher Reeve, que sofreu uma severa lesão medular, demonstrou tamanha plasticidade quando ele foi capaz, através de exercícios incansáveis, de recuperar algum sentido e mobilidade sete anos após seu acidente. Merzenich colocou da seguinte maneira: "Você não pode ter plasticidade em isolamento... isso é uma absoluta impossibilidade". Seus experimentos demonstraram que se um sistema cerebral se altera, todos os sistemas conectados a ele se alteram de igual modo. As mesmas "regras plásticas" - use-o ou perca-o, ou neurônios que disparam juntos, se ligam juntos - se aplicam em toda a parte. Diferentes áreas do cérebro não poderiam funcionar se esse não fosse o caso.

Será que as mesmas leis plásticas que se aplicam aos mapas cerebrais nos córtices sensorial, motor e de linguagem, se aplicam em mapas mais complexos, tais como aqueles que representam nossos relacionamentos, sexuais ou de outra forma? Merzenich também demonstrou que complexos mapas cerebrais são governados pelos mesmos princípios plásticos que os mapas mais simples.

O principal ponto é que em nossos períodos mais críticos, nós podemos adquirir gostos românticos e sexuais e inclinações que se ligarão em nossos cérebros e que podem exercer um poderoso impacto para o resto de nossas vidas. O fato de que nós podemos adquirir diferentes gostos sexuais contribui para a tremenda variação sexual entre nós. A ideia de que um período crítico pode ajudar a moldar o desejo sexual em adultos contradiz o argumento atualmente popular de que o que nos atrai não é tanto o produto de nossa história pessoal, mas a nossa biologia comum.

Certas pessoas - modelos e estrelas de cinema, por exemplo - são amplamente consideradas como belas ou sexualmente atrativas. Uma certa vertente da biologia nos ensina que essas pessoas são atrativas porque elas exibem sinais biológicos de robustez, que prometem fertilidade e força: uma aparência nítida e simétrica significa um parceiro potencialmente livre de doenças; uma silhueta de ampulheta é o sinal de uma mulher é fértil; os músculos do homem predizem que ele será capaz de proteger uma mulher e sua prole.

No entanto, isso simplifica aquilo que a biologia realmente ensina. Nem todos se apaixonam pelo corpo, como quando uma mulher diz: "Eu soube quando ouvi pela primeira vez aquela voz, que ele era para ser meu", a música da voz sendo talvez uma melhor indicação da alma do homem do que a superfície de seu corpo. Os gostos sexuais também se alteraram ao longo dos séculos. As belas de Rubens eram gordas, julgadas pelos padrões atuais, e ao longo das décadas as estatísticas essenciais das modelos das páginas centrais da Playboy e das modelos de moda variaram desde o voluptuoso até o andrógino. Gosto sexual é obviamente influenciado pela cultura e experiência, e é frequentemente adquirido e então ligado no cérebro.

"Gostos adquiridos" são por definição aprendidos, diferente de "gostos", que são inatos. Um bebê não precisa adquirir gosto por leite, água ou doces; estes são imediatamente percebidos como prazerosos. Gostos adquiridos are inicialmente experimentados com indiferença ou desprazer, mas depois se tornam prazerosos: os odores de queijos, o amaro italiano, vinhos secos, cafés, patês e o traço de urina em um rim frito. Muitas iguarias pelas quais as pessoas pagam caro, pelas quais elas precisam "desenvolver gosto", são as mesmas comidas que elas odiavam quando crianças.

No período Elizabetano, os amantes eram tão enamorados pelos odores corporais do outro que era comum para uma mulher deixar uma maça descascada em sua axila até que ela absorvesse seu suor e cheiro. Ela então daria essa "maça do amor" para seu amante cheirar em sua ausência. Nós, por outro lado, usamos aromas sintéticos de frutas e flores para mascarar nosso odor corporal para nossos amantes. Qual dessas duas abordagens é a natural e qual é a adquirida não é fácil de determinar. Uma substância tão "naturalmente" repugnante para nós como a urina de vacas é usada pela tribo Masai como uma loção de cabelo - uma consequência direta da importância da vaca em sua cultura. Muitos gostos que nós pensamos serem "naturais" são adquiridos através do aprendizado e tornam-se uma "segunda natureza" para nós. Nós não somos capazes de distinguir nossa "segunda natureza" de nossa "natureza original" porque nossos cérebros neuroplásticos, uma vez religados, desenvolvem uma nova natureza, tão biológica quanto nossa original.

A atual epidemia de pornografia fornece uma demonstração gráfica de que gostos sexuais podem ser adquiridos. Pornografia, entregue por uma conexão de internet de alta velocidade, satisfaz cada um dos pré-requisitos para uma alteração neuroplástica. Pornografia parece ser, em um primeiro juízo, um assunto puramente instintivo: figuras sexualmente explícitas desencadeiam respostas instintivas. Os mesmos gatilhos, as partes do corpo e suas proporções, que atraíam nossos antepassados, também nos excitariam. Isso é o que os pornógrafos querem que nós acreditemos, pois eles reivindicam estar combatendo a repressão sexual, o tabu e o medo, e que sua meta é liberar os instintos sexuais naturais e reprimidos.

Entretanto, na realidade, o conteúdo da pornografia é um fenômeno dinâmico que ilustra perfeitamente o processo de um gosto adquirido. Trinta anos atrás, pornografia "grosseira" normalmente significava uma exibição explícita da relação sexual entre dois parceiros excitados, mostrando suas genitálias. Pornografia "suave" significava figuras de mulheres, na maioria das vezes em uma cama, em seu banheiro ou em algum outro cenário semi romântico, em diversos formas de nudez, com os seios revelados. Atualmente, a pornografia "grosseira" evoluiu e é crescentemente dominada por temas sadomasoquistas ou sexo forçado, com ejaculação no rosto de mulheres e sexo anal violento, sempre envolvendo roteiros que mesclam sexo com ódio e humilhação. A pornografia grosseira agora explora o mundo da perversão, enquanto a suave é agora aquilo que a grosseira era décadas atrás, o sexo explícito entre adultos, hoje em dia disponível na TV à cabo. As imagens relativamente suaves dos anos passados - mulheres em várias formas de nudez - agora aparecem na mídia comum o dia todo, na erotização de todas as coisas, incluindo a televisão, vídeos de rock, novelas, propagandas e por aí vai.

O crescimento da pornografia tem sido extraordinário; ele representa 25 por cento dos alugueis de vídeos e é a quarta causa mais comum das pessoas para usarem a internet. Uma pesquisa da MSNBC.com sobre os espectadores em 2001 descobriu que 80 por cento sentiam que eles estavam passando tempo demais em sites pornográficos e que isso estava colocando seus relacionamentos e trabalhos em risco. A influência da pornografia suave é agora mais profunda por justamente não ser mais oculta: ela influencia jovens com pouca experiência sexual e mentes especialmente plásticas no processo de formação de seus gostos sexuais e desejos. Ainda assim, a influência plástica em adultos também pode ser profunda, e aqueles que dela se utilizam não fazem idea de que forma seus cérebros têm sido modificados por ela.

Durante a segunda metade da década de 90, quando a internet estava crescendo rapidamente e a pornografia estava bombando, eu tratei ou dei assistência para alguns homens que tinham essencialmente a mesma história. Cada um deles havia adquirido um gosto por certo tipo de pornografia que, de uma maior ou menor medida, atrapalhava ou até mesmo o enojava, tendo um efeito incômodo no padrão de seu excitamento sexual e, por fim, afetando seus relacionamentos e potência sexual. Nenhum desses homens eram significativamente imaturos, antissociais ou retraídos do mundo em uma massiva coletânea de pornografia que substituiria relacionamentos reais com mulheres. Eles eram homens agradáveis e atenciosos, com relacionamentos ou casamentos razoavelmente bem-sucedidos.

Geralmente, enquanto eu estava tratando um desses homens por causa de algum outro problema, ele diria, quase num sussurro e com nítido desconforto, que ele percebia estar passando cada vez mais tempo na internet, assistindo pornografia e se masturbando. Ele podia tentar aliviar esse desconforto recorrendo ao fato de que todos faziam isso. Em alguns casos, ele começava vendo algum site do tipo Playboy ou uma imagem/vídeo que alguém havia o enviado como uma piada. Em outros casos ele visitava sites inofensivos com algum anúncio sugestivo que o redirecionava para sites arriscados, ficando vidrado em pouco tempo.

Alguns desses homens relatavam algo mais, frequentemente de passagem, mas que chamava minha atenção. Eles relatavam uma crescente dificuldade de se excitarem por suas parceiras sexuais, fossem esposas ou namoradas, muito embora eles ainda as considerassem objetivamente atrativas. Quando eu perguntava se esse fenômeno tinha alguma relação com ver pornografia, eles respondiam que inicialmente isso os havia ajudado a ficarem mais excitados durante o sexo, mas que depois resultou no efeito oposto.

Agora, em vez de usarem seus sentidos para aproveitarem o fato de estarem na cama, no presente, com suas parceiras, a vida sexual gradualmente requeria que eles fantasiassem fazer parte de um roteiro de pornô. Alguns gentilmente tentavam persuadir suas parceiras para agirem como estrelas de pornô, estando mais interessados em "fazer sexo" do que em "fazer amor". Suas vidas de fantasia sexual foram gradualmente dominadas por cenários que eles haviam, por assim dizer, "baixado" em seus cérebros. Esses novos roteiros eram frequentemente mais primitivos e mais violentos do que suas antigas fantasias sexuais. Eu tive a impressão de que qualquer criatividade sexual que esses homens tivesse estava morrendo e que eles estavam se tornando viciados em pornografia de internet.

As mudanças que eu observei não se restringiam a algumas pessoas em terapia. Uma mudança social estava ocorrendo. Muito embora seja normalmente difícil obter informações sobre hábitos sexuais particulares, esse não é o caso com a pornografia hoje, isso porque seu uso é cada vez mais público. Essa mudança coincide com outra, em que o termo "pornografia" foi substituído por um mais casual: pornô.

Em seu livro sobre a vida no campus Norte Americano, Eu Sou Charlotte Simmons, Tom Wolfe passou alguns anos observando estudantes em campus universitários. No livro, um garoto chamado Ivy Peters chega em um dormitório masculino e pergunta: "Alguém aí tem pornô?". Wolfe continua: "Isso não era um pedido incomum. Muitos rapazes falavam abertamente sobre como eles se masturbavam ao menos uma vez por dia, como se isso fosse uma forma inteligente de manutenção do sistema psicossexual". Um dos garotos responde a Ivy Peters: "Pergunte no terceiro andar. Eles têm algumas revistas individuais lá". Contudo, Peter respondeu: "Eu desenvolvi uma certa tolerância a revistas... eu preciso de vídeos". Outro rapaz diz: "Ah, pel'amor de deus, I.P., são dez horas da noite. Daqui a pouco esses depósitos de esperma vão começar a vir aqui para passar a noite... e você aqui procurando vídeos pornô e sexo manual". Então Ivy "encolheu os ombros e virou as palmas de suas mãos como se dissesse, 'eu quero pornografia. O que isso tem de mais?".

O que havia de mais era sua tolerância. Ele reconhecia que ele era como um viciado em drogas que já não pode mais ficar chapado com as imagens que antes o excitavam. O perigo é que essa tolerância irá afetar os relacionamentos, assim como fez com os pacientes que eu atendia, levando a problemas de impotência e novos gostos, por vezes desagradáveis. Quando os pornógrafos se gabam de estarem quebrando os limites ao introduzirem nossos e mais fortes temas, o que eles não falam é que assim o fazem porque seus consumidores estão desenvolvendo certa tolerância ao conteúdo.

As contracapas de revistas masculinas e sites de pornografia na Internet estão cheios de propagandas de drogas do tipo Viagra - uma droga desenvolvida para homens mais velhos com problemas de ereção relacionados à idade e vasos sanguíneos bloqueados no pênis. Os jovens de hoje em dia que navegam na pornografia têm um terrível medo de impotência, "disfunção erétil" como é eufemisticamente chamada. O termo enganoso implica que esses homens têm algum problema em seus pênis, mas o problema está em suas cabeças, nos mapas sexuais de seus cérebros. Seus pênis funcionam normalmente quando eles usam pornografia. Eles raramente pensam que pode haver uma relação entre a pornografia que eles consomem e sua impotência (alguns homens, todavia, reveladoramente descreveram suas horas em um computador, em sites de pornografia, como tempo gasto ao "masturbar meu cérebro"). Um desses garotos nas cenas de Wolfe descreve as garotas que viriam ter sexo com seus namorados como "depósitos de esperma". Ele também é influenciado por imagens pornográficas, pois "depósito de esperma", como muitas mulheres nos filmes pornô, estão sempre dispostas, apenas recipientes e, portanto, desvalorizadas.

O vício em pornografia da internet não é uma metáfora. Nem todos os vícios envolvem drogas ou álcool. Pessoas podem ser seriamente viciadas em apostas, até mesmo em correr. Todas os viciados demonstram uma perda de controle sobre a atividade, compulsivamente buscam por isso a despeito de consequências negativas, desenvolvem uma tolerância de forma que eles precisam ir além, para níveis mais altos de estímulo para se satisfazerem, e experimentam abstinência se não podem consumar o ato viciante. Todos os vícios envolvem mudanças à longo prazo, as vezes para toda a vida, no cérebro.

Para os viciados, a moderação é impossível, e eles precisam evitar a substância ou atividade completamente se quiserem evitar os comportamentos viciosos. Os Alcoólicos Anônimos insistem de que não há algo como "ex-alcoólico", e fazem com que pessoas que não tomaram nem um só drinque em décadas se introduzirem, em suas reuniões, dizendo: "Meu nome é João e eu sou um alcoólico". Em termos de plasticidade, eles estão corretos. A fim de determinar quão viciante é uma droga, os pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde (NIH) em Maryland, treinam ratos para pressionarem uma barra até que obtenham uma injeção de droga. Quanto mais duro o animal estiver disposto a pressionar a barra, mais viciante é a droga.

O vício por quase qualquer droga ilícita, como a cocaína, e até mesmo vícios por coisas distintas de drogas, como correr, faz com que a dopamina, o neurotransmissor de prazer, fique mais ativa no cérebro. A dopamina é chamada de o transmissor de recompensa, porque quando nós realizamos algo - como correr uma corrida e vencer - nossos cérebros desencadeiam sua liberação. Embora exaustos, recebemos um surto de energia, prazer excitante e confiança, até mesmo levantamos nossas mãos e corremos uma volta da vitória. Os perdedores, por outro lado, que não recebem tal surto de dopamina, esgotam sua energia imediatamente e colapsam na linha de chegada, sentindo-se péssimos consigo mesmos.

Ao hackear nosso sistema de dopamina, as substância viciantes nos dão prazer sem que tenhamos que trabalhar por ele.

A dopamina, como vimos na obra de Merzenich, também está envolvida em mudanças plásticas. O mesmo surto de dopamina que nos anima também consolida as conexões neurais responsáveis pelos comportamentos que nos levam a realizar nossa tarefa. Quando Merzenich usou um elétrodo para estimular o sistema de recompensa de dopamina de um animal enquanto esse jogava um jogo. Sua liberação estimulou uma alteração plástica, aumentando a representação daquele som no mapa auditivo do animal.

Uma importante relação com a pornografia é que a dopamina também é liberada durante a excitação sexual, aumentando o desejo sexual em ambos os sexos, facilitando o orgasmo e ativando os centros de prazer do cérebro. Eis o porquê do poder viciante da pornografia. Eric Nestler, da Universidade do Texas, demonstrou como vícios causam danos permanentes no cérebro de animais. Uma pequena dose de muitas drogas viciantes é capaz de produzir uma proteína chamada ΔFosB (lê-se "delta Fos B"), que se acumula nos neurônios. Cada vez que a droga é utilizada, mais ΔFosB se acumula, até que isso altere uma chave genética, afetando quais genes estão ligados ou desligados. Mexer nessa chave causa alterações que persistem por muito tempo, mesmo depois quea droga não está presente, levando a danos irreversíveis no sistema de dopamina do cérebro e deixando o animal muito mais propenso ao vício. Vícios que não envolvem drogas, como correr e ingerir sacarose, também leve ao acúmulo de ΔFosB e as mesmas mudanças permanentes no sistema de dopamina.

Os pornógrafos prometeram um prazer saudável e alívio da tensão sexual, mas o que eles frequentemente entregam é um vício, tolerância e, por fim, uma diminuição do prazer. Paradoxalmente, os pacientes homens com quem eu trabalhei frequentemente desejavam pornografia mas não gostavam disso. O senso comum é que um viciado busca mais daquilo porque ele gosta do prazer que isso lhe dá e não gosta da dor da abstinência. Entretanto, os viciados usam drogas mesmo quando não há perspectiva de prazer, mesmo quando sabem que possuem uma dose insuficiente para ficarem chapados, e desejarão mais mesmo antes de sofreram com a abstinência. Desejar e querer são duas coisas diferentes.

Um viciado sente necessidade porque seu cérebro plástico tornou-se sensível à droga ou à experiência. Sensibilização é diferente de tolerância. À medida que a tolerância se desenvolve, o viciado requer mais e mais da substância ou pornografia para obter um efeito prazeroso; à medida que a sensibilização se desenvolve, ele requer cada vez menos da substância para desejá-la ardentemente. Portanto, sensibilização leva a um aumento do desejo, embora não necessariamente do prazer. É o acúmulo de ΔFosB, causado pela exposição a uma substância viciante ou atividade, que leva até a sensibilização.

A pornografia é mais excitante do que gratificante porque nós temos dois sistemas de prazer em nossos cérebros, um relacionado ao prazer excitante e outro relacionado com o prazer gratificante. O sistema excitante se relaciona ao prazer "apetitivo", que obtemos quando imaginamos algo que desejamos, tal como sexo ou uma boa refeição. Sua neuroquímica é amplamente relacionada com a dopamina, que aumenta nosso nível de tensão. O segundo sistema de prazer se relaciona com a gratificação, ou prazer consumatório, presente quando de fato se faz sexo ou come aquela refeição, um prazer calmante e realizador. Sua neuroquímica se baseia na liberação de endorfinas, que estão relacionadas com opiáceos, dando uma sensação pacífica e eufórica.

A pornografia, por oferecer um interminável harém de objetos sexuais, superativa o sistema apetitivo. As pessoas que assistem pornografia desenvolvem novos mapas em seus cérebros, baseados nas fotos e nos vídeos que eles viram. Por se tratar de um cérebro que segue a regra do "use-o ou perca-o", quando nós desenvolvemos um novo mapa, também desejamos mantê-lo ativo. Da mesma forma que nossos músculos se tornam impacientes para serem exercitados quando nós permanecemos o dia todo sentado, assim também nossos sentidos anseiam por serem estimulados.

Os homens em seus computadores vendo pornografia eram, desconcertantemente, como os ratos nas jaulas do Instituto Nacional de Saúde, pressionando uma barra para receber uma injeção de dopamina ou seu equivalente. Muito embora eles não o soubessem, eles foram seduzidos até sessões de treino pornográfico que reuniam todas as condições necessárias para alterações plásticas do mapa cerebral. Uma vez que neurônios que disparam juntos, se ligam juntos, esses homens receberam quantidades massivas de prática para ligarem essas imagens nos centros de prazer do cerebro, com a atenção arrebatadora necessária para uma alteração plástica.

Eles pensaram nessas imagens mesmo quando ausentes do computador, ou quando faziam sexo com suas namoradas, as reforçando. Cada vez que eles sentiram excitação sexual e tiveram um orgasmo quando se masturbavam, um "surto de dopamina", o neurotransmissor da recompensa, consolidava as conexões feitas no cérebro durante aquelas sessões. A recompensa não apenas fomentava o comportamento, mas também impedia que se embaraçassem ao comprar uma Playboy na loja. Eis aqui um comportamento sem "punição", apenas recompensa. O conteúdo daquilo que eles julgavam excitante mudou à medida em que os websites introduziram temas e roteiros que alteraram seus cérebros que estivessem ciêntes disso. Porque a plasticidade é competitiva, seus mapas cerebrais relacionados às novas e excitantes imagens cresceram em detrimento daquilo que anteriormente os atraí - eis a razão, creio, porque eles começaram a julgar que suas namoradas fossem menos excitantes.

A história de Sean Thomas, primeiramente publicada no England's Spectator, é um notável relato de um homem que caiu no vício da pornografia, mas que lança luz sobre como a pornografia altera os mapas cerebrais e muda os gostos sexuais, assim como o papel da plasticidade do momento crítico no processo. Thomas escreveu: "Eu nunca gostei de pornografia, não mesmo. Claro, na minha adolescência, na década de 70, eu costumava ter uma cópia casual da Playboy debaixo do meu travesseiro, mas em geral eu não ia atrás de revistas pornográficas ou filmes eróticos. Eu achava que eles eram tediosos, repetitivos, absurdos e era muito embaraçoso comprar". Ele foi repelido pela aridez das cenas de pornô e pelo excesso de caras bigodudos que as habitavam.

Todavia, em 2001, logo após ele ter acessado a internet pela primeira vez, ele ficou curioso sobre o pornô que todos diziam estar dominando a internet. Muitos dos sites eram amostras grátis, ou sites "de entrada", para fazer levar as pessoas até as coisas mais pesadas. Haviam galerias de garotas nuas, de tipos comuns de fantasias e atrações sexuais, projetadas para pressionar certos botões no cérebro do usuário, até mesmo aqueles que ele não sabia ter. Haviam fotos de lésbicas em uma Jacuzzi, desenho pornô, mulheres fumando no banheiro, sexo misto, sexo em grupo e homens ejaculando sobre mulheres Asiáticas submissas. A maioria das figuras contava uma história. Thomas encontrou algumas imagens e roteiros que o atraíram e que "me arrastaram de volta no dia seguinte. E no próximo. E no próximo". Em pouco tempo ele se deparou que sempre quando ele tinha um minuto de sobra, ele iria "começar a procurar esfomeadamente por Pornô de Internet".

Até que um dia ele se deparou com um site que mostrava imagens de espancamento. Para sua surpresa, ele ficou intensamente excitado. Thomas rapidamente descobriu vários sites relacionados, tais como "Páginas de Espancamento da Bernie" e o "Colégio do Espancamento". "Foi nesse momento", ele escreveu, "que o vício de verdade se estabeleceu. Meu interesse em espancamento me fez perguntar: que outras distorções eu devia ter? Que outros cantos secretos e recompensadores jaziam na minha sexualidade que eu agora poderia percorrer na privacidade da minha casa? Muitos, foi o resultado. Eu descobri uma séria propensão para, entre outras coisas, para ginecologia lésbica, imagens pesadas de sexo inter-racial e imagens de garotas Japonesas tirando suas roupas justas. Eu também tinha interesse em jogadoras de netball sem calcinhas, garotas Russas bêbadas se exibindo, e cenários conturbados nos quais atrizes Dinamarquesas tinham suas partes íntimas raspadas por suas parceiras femininas dominantes no chuveiro. A internet me revelou, em outras palavras, que eu possuía uma inúmera quantia de fantasias sexuais e fetiches, e que o processo de satisfazer esses desejos online apenas resultou em um desejo ainda maior".

Até que ele se deparou com imagens de espancamento, que supostamente acessaram alguma experiência de infância ou fantasia sobre ser punido, as imagens que ele via chamavam sua atenção mas não o compeliam. As fantasias sexuais de outras pessoas nos chateiam. A experiência de Thomas era semelhante a de alguns de meus pacientes: sem que estivessem completamente cônscios daquilo que procuravam, eles vasculharam centenas de imagens e cenários até que encontraram aquela imagem ou roteiro sexual que tocava em algum tema oculto que realmente os excitava. Uma vez que Thomas encontrou essa imagem, ele mudou. A imagem do espancamento prendeu sua atenção, uma condição para uma alteração plástica.

Diferentemente de uma mulher de verdade, essas imagens pornográficas estavam disponíveis o dia todo, todos os dias em um computador. Thomas agora estava enredado. Ele tentou se controlar, mas passava ao menos cinco horas por dia em seu laptop. Ele navegava furtivamente, dormindo apenas três horas por noite. Sua namorada, ciente de seu cansaço, pensava que ele estivesse saindo com alguém. Ele passou por tanta privação de sono que sua saúde deteriorou, e assim contraiu várias infecções que o conduziram para uma sala de emergência no hospital que o fez, por fim, refletir. Ele buscou saber sobre seus amigos homens e descobriu que muitos deles estavam enredados também. Certamente, havia algo sobre a sexualidade de Thomas que, além de sua compreensão, havia vindo à tona de repente.

Será que a internet apenas revelava fetiches e distorções, ou ela também ajudava a criá-los? Julgo que ela criava novas fantasias à partir de aspectos de sexualidade que estavam além da consciência da pessoa, interligando esses elementos e formando novas redes. Não é plausível que milhares de homens tenham presenciado, ou até mesmo imaginado, atrizes Dinamarquesas raspando as partes íntimas de suas parceiras dominantes no chuveiro.

Pornografia pesada revela algumas das primeiras tramas neurais que se formaram nos períodos críticos do desenvolvimento sexual e trazem todos esses elementos antigos, esquecidos e reprimidos juntos para formarem uma nova trama, na qual todos aqueles elementos são reunidos. Sites de pornografia geram catálogos de fetiches comuns e os unem em imagens. Cedo ou tarde a pessoa que vê pornografia encontrará uma combinação arrebatadora que pressiona vários de seus botões sexuais de uma só vez. Depois, a pessoa reforça essa trama ao ver as imagens repetidamente, se masturbando e lançando dopamina, o que fortalece essas tramas. Ele cria uma espécie de "neo-sexualidade", uma libido recriada que possui fortes raízes em suas ocultas tendências sexuais.

Todavia, porque a pessoa frequentemente desenvolve tolerância, o prazer da descarga sexual precisa ser suplementado com o prazer de uma descarga agressiva, e imagens sexuais e agressivas são gradualmente confundidas - eis o porquê do aumento de temas sadomasoquistas no pornô pesado. Os períodos críticos lançam as bases paras nossos tipos, mas apaixonar-se na adolescência ou posteriormente fornece uma oportunidade para uma segunda rodada de alterações plásticas massivas.

Stendhal, o novelista e ensaísta do séc. XIX, entendeu que o amor podia conduzir a mudanças radicais na atração. O amor romântico desencadeia emoções tão poderosas que nós podemos reconfigurar aquilo que achamos atraente, até mesmo passando por sobre a beleza "objetiva". Em "Sobre o Amor", Stendhal descreve um jovem homem, Alberic, que conhece uma mulher mais bela do que sua senhora. Todavia, Alberic é muito  mais atraído pela sua senhora do que pela outra mulher porque aquela prometia a ele mais felicidade. Stendhal chama isso de "A Beleza Destronada pelo Amor". O amor tem tal poder de alterar a atração que Alberic fica excitado por um pequeno defeito na face de sua senhora, uma ruga. Isto o excita porque "ele presenciou tantas emoções diante daquela ruga, emoções das mais primorosas e dos interesses mais arrebatadores que, quaisquer que tenham sido suas emoções, elas foram renovadas com incrível vivacidez diante da mera visão desse sinal, presente também na face de outras mulheres... neste caso a feiura se torna beleza".

Esta transformação dos gostos é possível porque nós não nos apaixonamos pela aparência somente. Sob circunstâncias normais, achar outra pessoa atraente pode provocar uma disposição para se apaixonar, mas o caráter daquela pessoa e uma imensidão de outros atributos, incluindo sua habilidade de nos fazer sentir bem sobre nós mesmos, cristaliza o processo de se apaixonar. Depois, o fato de se estar apaixonado desencadeia um estado emocional tão prazeroso que pode tornar até mesmo rugas atraentes, religando plasticamente nosso senso estético.

Eis como julgo que funciona. Em 1950, os "centros de prazer" foram descobertos no sistema límbico, como uma parte do cérebro altamente envolvido com o processamento das emoções. Nos experimentos com humanos do Dr. Robert Heath's, um elétrodo foi implantado na região septal do sistema límbico e ligado. Aqueles pacientes experimentaram uma euforia tão poderosa que quando os pesquisadores tentaram encerrar o experimento, um dos pacientes implorou para que eles não fizessem. A região septal também disparava quando assuntos agradáveis eram discutidos com os pacientes ou durante orgasmos. Esses centros de prazer foram descobertos como parte do sistema de recompensa do cérebro, o sistema mesolímbico de dopamina. Em 1954, James Olds e Peter Milner demonstraram que quando eles inseriam elétrodos nos centros de prazer dos animais ao ensinar-lhes uma tarefa, eles aprendiam mais facilmente porque o aprendizado parecia muito prazeroso e recompensador.

Quando os centros de prazer são estimulados, tudo o que nós experimentamos nos dá prazer. Uma droga como a cocaína age em nós ao diminuir o limite necessário para que os centros de prazer sejam estimulados, tornando mais fácil para que eles de fato sejam. Não é apenas a cocaína que nos dá prazer. É o fato de que nossos centros de prazer agora reagem tão facilmente que qualquer coisa que nós experimentamos nos faz sentir ótimos. Não é somente a cocaína que pode diminuir o limite necessário para que nossos centros de prazer rejam. Quando pessoas com transtorno bipolar (anteriormente chamado de depressão maníaca), começam a se mover em direção às suas manias, seus centros de prazer começam a disparar mais rapidamente. Apaixonar-se também diminuiu o limite necessário para que os centros de prazer disparem. Quando as pessoas estão chapadas em cocaína, torna-se maníaca ou se apaixona, ela entra em um estado entusiasmático e torna-se otimista diante de todas as coisas, porque todas essas três condições diminuem o limite necessário para a estimulo do sistema de prazer apetitivo, o sistema relacionado à dopamina associado com o prazer e a antecipação de algo que desejamos. 

O viciado, o maníaco e o apaixonado são cada vez mais preenchidos com uma esperançosa antecipação e estão mais sensíveis a qualquer coisa que possa dar prazer - flores e ar fresco os inspiram, e o menor gesto atencioso faz com que se alegrem com toda a humanidade. Eu chamo este processo de "globalização". A globalização é intensa durante a paixão e por isso é, julgo, uma das principais razões pelas quais o amor romântico é um catalisador tão poderoso de alterações plásticas. Uma vez que os centros de prazer estão disparando tão livremente, a pessoa enamorada se apaixona não só com a pessoa amada, mas com o mundo, e romantiza sua visão dele. Porque nossos cérebros estão experimentando surtos de dopamina, que consolida a alteração plástica, quaisquer experiências prazerosas e associações que tenhamos no estado inicial de nossas paixões são, portanto, ligados em nossos cérebros.

A globalização não apenas nos fazer sentir mais prazer com o mundo, ela também torna mais difícil que experimentemos dor, desprazer e aversão. Heath demonstrou que quando nossos centros de prazer disparam, é mais difícil para os centros de dor próximos dispararem também. Coisas que normalmente nos chateiam já não nos chateiam mais. Nós amamos estar apaixonados não apenas porque isso nos faz mais felizes mais facilmente, mas também porque torna mais difícil de ficarmos infelizes. A globalização também cria a oportunidade para que desenvolvamos novos gostos acerca daquilo que achamos atraente, como a ruga que deu a Alberic tanto prazer. Neurônios que disparam juntos, se ligam juntos, e sentir prazer na presença dessa ruga que normalmente não é atrativa faz com que isso se ligue no cérebro como uma fonte de prazer. 

Um mecanismo semelhante acontece quando um "ex"-viciado em cocaína passa pela viela maltrapilha onde ele usou a droga pela primeira vez e é arrebatado por um desejo tão poderoso que ele quer voltar atrás. O prazer que ele sentiu quando chapado foi tão intenso que fez com que ele experimentasse aquela viela feia como sendo encantadora, isso por associação. Existe, portanto, uma verdadeira química do amor, e os estágios do romance refletem as alterações em nossos cérebros não apenas durante os êxtases, mas também durante as agonias do amor.

Imagens de ressonância magnética funcional de namorados olhando para as fotos de seu amor demonstram que uma parte do cérebro com alta concentração de dopamina é ativada; seus cérebros se assemelham com o daquelas pessoas sob o efeito da cocaína. Contudo, as dores do amor também possuem uma química. Quando separados por muito tempo, amantes entram em choque e sofrem de abstinência, anseiam por seus amados, ficam ansioso, duvidam de si mesmos, perdem energia, e se sentem para baixo, senão depressivos. Como uma pequena dose de droga, uma carta, um e-mail ou uma mensagem pelo telefone de seus amados proporciona uma injeção de energia. Caso eles rompam o relacionamento, eles se deprimem - o oposto do maníaco. Esses "sintomas de vício" - os altos, os baixos, os desejos, a abstinência e as quedas - são sinais subjetivos de alterações plásticas acontecendo na estrutura de nossos cérebros, à medida que eles se adaptam à presença ou ausência da pessoa amada.

Uma tolerância, similar à tolerância por uma droga, pode desenvolver-se em amantes felizes à medida que eles se acostumam um com o outro. A dopamina gosta de novidade. Quando um casal monogâmico desenvolve certa tolerância um pelo outro e perdem aquela alta romântica que uma vez tiveram, essa mudança pode ser um sinal de que - não que eles sejam entediantes ou inadequados - seus cérebros plásticos se ajustaram tão bem um ao outro que é complicado para eles experimentarem aquela sensação que antes obtinham um do outro.

Felizmente, um casal pode estimular sua dopamina, mantendo aquela chama acesa, ao injetar novidade em seu relacionamento. Quando um casal viaja em férias românticas ou experimentam novas atividades juntos, ou vestem novos tipos de roupas, ou surpreendem um ao outro, eles estão lançando mão da novidade para ativar os centros de prazer, de forma que tudo que eles experimentam, incluindo um ao outro, os excita e agrada. Uma vez que os centros de prazer são ligados e a globalização começa, a nova imagem da pessoa amada se torna novamente associada com prazeres inesperados e é plasticamente ligada no cérebro, que evoluiu para responder à novidade. Precisamos continuar aprendendo para que nos sintamos sempre vivos, e quando a vida, ou o amor, se torna muito previsível e parece que resta pouco para se aprender, nós nos tornamos inquietos - um protesto, talvez, do cérebro plástico quando ele já não pode realizar sua tarefa essencial.

O amor cria uma generosa disposição da mente. Isto porque o amor nos permite experimentar situações ou traços físicos que antes não eram prazeroso como se fossem, ele também permite que nós desaprendamos associações negativas, outro fenômeno plástico. A ciência do desaprendizado é uma muito recente. Dado que a plasticidade é muito competitiva, quando uma pessoa desenvolve uma trama neural, ela se torna eficiente e autossustentável, e, como um hábito, difícil de desaprender. Lembrem-se de que Merzenich estava procurando por "uma borracha" para ajudá-lo a mudar e desaprender maus hábitos.

Químicas diferentes estão envolvidas no aprendizado e no desaprendizado. Quando aprendemos algo novo, neurônios disparam juntos e se ligam juntos, e um processo químico no nível neurológico chamado "potenciação de longa duração", ou PLD, que fortalece as conexões entre os neurônios acontece. Quando o cérebro desaprende associações e desconecta neurônios, outro processo químico ocorre, chamado "depressão de longa duração", ou DLD (o que não tem nada a ver com um estado de humor depressivo).

Desaprender e enfraquecer conexões entre neurônios é um processo tão plástico e tão importante quanto aprender e os fortalecer. Se nós tão somente fortalecêssemos as conexões, nossas tramas neurais seriam saturadas. Evidências sugerem que desaprender memórias existentes é necessário para se abrir espaço para novas memórias em nossas tramas. Desaprender é essencial quando nós nos movemos de um estágio de desenvolvimento para o próximo. Quando no final da adolescência uma garota deixa o lar para ir para a faculdade em outro estado, por exemplo, tanto ela quanto seus pais passam por dor e uma grande alteração plástica, à medida que eles mudam antigos hábitos emocionais, rotinas e auto-imagens.

Se apaixonar pela primeira vez também significa entrar em um novo estágio de desenvolvimento e exige uma grande quantia de desaprendizado. Quando pessoas se votam umas às outras, elas precisam mudar radicalmente sua existência, e frequentemente suas intenções egoísticas, e modificar todos os demais vínculos, a fim de integrar a nova pessoa em suas vidas. A vida agora envolve uma contínua cooperação que exige a reorganização plástica dos centros do cérebro que lidam com emoções, sexualidade e o ser. Milhões de tramas neurais precisam ser obliteradas e substituídas por novas - eis uma das razões pela qual se apaixonar, para muitas pessoas, parece como perder sua identidade.

Se apaixonar também pode significar deixar de ter paixão por uma antiga paixão; isso também exige desaprendizado em nível neural. O coração de um homem é quebrado por seu primeiro amor quando seu noivado termina. Ele olha para várias mulheres, mas todas se empalidecem em comparação com a noiva que ele pensou que seria seu verdadeiro amor e cuja imagem o assombra. Ele não pode desaprender o padrão de atração por seu primeiro amor. Ou ainda uma mulher casada por vinte anos que se torna uma jovem viúva e que se recusa a namorar. Ela não pode se imaginar apaixonando-se outra vez, e a ideia de "substituir" seu marido a ofende. Anos passam, e suas amigas dizem a ela que é tempo de seguir em frente, mas nada adianta. Frequentemente tais pessoas não podem seguir adiante porque elas não podem senão lamentar-se; o pensamento de viver sem aquele que eles amam é muito doloroso para suportar. Em termos neuroplásticos, se o romântico ou a viúva forem começar um novo relacionamento sem bagagem alguma, cada um deve primeiro religar bilhões de conexões em seus cérebros.

A obra de lamentar-se é gradual. Nós lamentamos ao invocar uma memória de cada vez, revivendo-as e então deixando-as ir. No nível cerebral, estamos acionando cada uma das tramas neurais que foram ligadas juntas a fim de formar a percepção da pessoa, experimentando a memória com vividez excepcional, para então dizer adeus a uma trama de cada vez. No pesar, nós aprendemos a viver sem aquele que amamos, mas a razão pela qual essa lição é tão difícil é porque nós primeiro precisamos desaprender a ideia de que a pessoa existe e de que seja possível contar com ela.

Walter J. Freeman, um professor de neurociência em Berkeley, foi o primeiro a traçar a conexão que existe entre o amor e o desaprendizado em massa. Ele reuniu vários fatos biológicos convincentes que apontam para a conclusão de que uma reorganização neuronal massiva ocorre em dois estágios da vida: quando nós nos apaixonamos e quando nos tornamos pais. Freeman argumenta que uma reorganização plástica massiva do cérebro - muito mais massiva do que o aprendizado e desaprendizado normais - se torna possível por causa de um neuromodulador do cérebro.

Neuromoduladores são diferentes dos neurotransmissores. Enquanto os neurotransmissores são liberados em sinapses para excitar ou inibir neurônios, os neuromoduladores realçam ou atenuam o efeito das conexões sinápticas e causam uma mudança duradoura. Freeman acredita que quando nós comprometemos em amor, a ocitocina, o neuromodulador do cérebro, é liberada, permitindo que conexões neurais existentes se desfaçam e que mudanças em grande escala aconteçam. A ocitocina é as vezes chamada de o neuromodulador do comprometimento, porque ela reforça o vínculo entre mamíferos. Ela é liberada quando pessoas que se amam se conectam e fazem amor - nos humanos, a ocitocina é liberada por ambos os sexos durante o orgasmo - e quando casais criam e cuidam de suas crianças. Em mulheres, a ocitocina é liberada durante o trabalho de parto e amamentação. Um estudo de imagens de ressonância magnética funcional demonstra que quando mães olham para as fotos de seus filhos, as regiões do cérebro ricas em ocitocina são atividas. Em mamíferos machos, um neuromodulador muito semelhante, chamado vasopressina, é liberado quando eles se tornam pais.

Muitos jovens que duvidam se jamais serão capazes de lidar com a responsabilidade de tornarem-se pais não estão cientes da dimensão em que a ocitocina pode alterar seus cérebros, permitindo-os estar prontos para a ocasião. Estudos sobre um animal monogâmico chamado arganaz do campo demonstram que a ocitocina, que é normalmente liberada em seus cérebros durante o acasalamento, os faz pares para toda a vida. Se uma arganaz fêmea é injetada com ocitocina em seu cérebro, ela irá se tornar um par para toda a vida com um macho próximo. Se um arganaz macho for injetado com vasopressina, ele irá se aconchegar com uma fêmea próxima.

A ocitocina parece também aproximar crianças de seus pais, e os neurônios que controlam sua secreção podem possuir um período crítico próprio. Crianças criadas em orfanatos sem contato amoroso próximo frequentemente possuem problemas de relacionamento quando mais velhas. Seus níveis de ocitocina permanecem baixos por vários anos depois de já terem sido adotadas por famílias amorosas.

Enquanto que a dopamina induz à excitação, nos coloca à todo vapor e desencadeia o estimulo sexual, a ocitocina induz à calma, à uma disposição calorosa que multiplica os sentimentos tenros e ao apego, podendo levar-nos a baixar a guarda. Um recente estudo demonstra que a ocitocina também desencadeia a confiança. Quando as pessoas cheiram ocitocina e depois participam de um jogo financeiro, elas ficam mais sujeitas a confiarem a outros o seu dinheiro. Embora ainda haja mais trabalho a ser feito sobre a ocitocina em humanos, as evidencias sugerem que seu efeito é semelhante do que aquele nos arganazes do campo: ela faz com que nos comprometamos aos nossos parceiros e nos devotemos às nossas crianças.

Não obstante, a ocitocina age de uma forma única, no que tange ao desaprendizado. Em ovelhas, a ocitocina é liberada no bulbo olfatório, uma parte do cérebro envolvida na percepção dos odores, com cada nova ninhada. As ovelhas e muitos outros animais se apegam à sua prole, ou "deixam sua marca" nela, pelo cheiro. Elas cuidam de seus próprios cordeiros e rejeitam os que não são da família. Contudo, se a ocitocina é injetada em uma mãe carneira quando exposta a um cordeiro de fora da família, ela irá cuidar do cordeiro estranho também. A ocitocina não é, todavia, liberada com a primeira cria - apenas com as ninhadas que se seguirão - sugerindo que a ocitocina exerce o papel de apagar as antigas tramas neurais que vinculavam a mãe com sua primeira cria, a fim de que ela possa se apegar com as demais (Freeman suspeita que as mães se apegam com sua primeira prole por meio de outras neuroquímicas). A habilidade da ocitocina de apagar comportamentos aprendidos tem levado os cientistas a chamá-la de um hormônio amnéstico. Freeman propões que a ocitocina desfaz conexões neurais existentes que sublinham vínculos existentes, a fim de que novos vínculos possam ser formados. A ocitocina, nesta teoria, não ensina os pais como serem pais. Nem fazem os amantes cooperativos e gentis; antes, ela torna possível a eles aprenderem novos padrões...

. . . Quanto aos pacientes que se tornaram envolvidos com pornografia, a maioria foi capaz de abandonar o vício uma vez que eles entenderam o problema e como eles estavam o reforçando plasticamente. Eles descobriram por fim que se sentiam novamente atraídos por suas esposas. Nenhum desses homens tinham personalidades dadas ao vício ou sérios traumas infantis, quando eles entenderam o que estava acontecendo com eles, eles pararam de usar seus computadores por um tempo para enfraquecer suas problemáticas tramas neurais, e seu apetite por pornografia mingou. Seu tratamento para os gostos sexuais adquiridos mais tarde na vida foi mais simples do que para pacientes que, em seus períodos críticos, adquiriram uma preferência por um tipo sexual problemático. Ainda assim, alguns desses homens foram capazes, como o A., de mudarem seu tipo sexual, pois as mesmas leis da neuroplasticidade que nos permitem adquirir gostos problemáticos também nos permitem, em tratamentos intensivos, adquirir novos gostos mais saudáveis e, em alguns casos, até mesmo perder nossos antigos e problemático gostos. É um cérebro que funciona à base do use-o, ou perca-o, até mesmo quando se trata do desejo sexual e do amor...

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