Um Movimento Carismático na Igreja Antiga

Os Montanistas afirmavam que eles estavam adentrando uma nova era do Espírito Santo, com uma ênfase renovada sobre profecia, falar em línguas e outros dons do Espírito. A experiência Carismática moderna faz reivindicações praticamente idênticas.

Nota do Editor: Este é o segundo artigo do Pe. Zachariah sobre os perigos do movimento carismático. O primeiro artigo da série pode ser lido aqui: Uma Crítica Ortodoxa da Experiência Carismática Moderna


Na cidade da Frígia, região central da Ásia Menor, por volta do ano 160 d.C., um homem chamado Montano, reivindicou ser "tomado" pelo Espírito Santo. Ele começou a receber mensagens "especiais", "falava em línguas", "profetizava" e por aí vai. Duas mulheres "profetizas" logo se juntaram a ele: Priscila e Maximila.

Esse acontecimento aconteceu bem antes do ano 311 d.C., que de acordo com os modelos da Igreja Carismática/Emergente, marca aproximadamente o ponto em que a Igreja supostamente entrou em um período de "trevas" (veja a parte um desta série). Esse desenrolar de acontecimentos ocorreu enquanto a Igreja, de acordo com tal pensamento, ainda era "conduzida pelo Espírito". Portanto, até mesmo para um adepto da filosofia Carismática moderna, este incidente deve ter alguma importância.

A História Eclesiástica, de Eusébio, fornece os seguintes detalhes:

Diz-se que em Misia da Frígia existe uma aldeia chamada Ardaban. Dizem que ali, um recém-convertido à fé chamado Montano, pela primeira vez, em tempos de Grato, procônsul da Ásia, deu ao Adversário oportunidade contra si. E estando fora de si, de repente entrou em um arrebatamento e êxtase: ele convulcionava, e começou a falar e a proferir coisas estranhas, profetizando contrariamente ao perene costume da Igreja, recebido por tradição desde o início [...]

Portanto, por um ardil, ou antes, por tal sistema de arte maligna, o Diabo, maquinando destruição para o desobediente, e sendo indignamente honrado por eles, secretamente incitou e inflamou seus entendimentos, que já haviam se alienados da verdadeira fé. Depois, ele suscitou além disso duas mulheres, e as encheu com o espírito do engano, de forma que elas falavam loucamente, de modo irracional e estranho, como a pessoa já mencionada.

E o espírito os proclamava bem-aventurados, aos que se regozijavam e gloriavam nele, e os enchia com a grandeza de suas promessas; às vezes, no entanto, ele os repreendia abertamente de uma maneira sábia e legítima, a fim de parecer que ele também fosse um que censura. Contudo, poucos eram os frígios que foram enganados [...]

E o espírito orgulhoso ensinava também a blasfemar contra toda a Igreja católica, que se estende sob o céu, porque o espírito pseudoprofético não conseguiu dela nem louvor nem nela entrada.

(Eusébio, A História Eclesiástica, 5.16).

Os Montanistas, baseados na breve descrição acima, experimentaram uma manifestação similar aos do movimento Pentecostal/Carismático, e a Igreja Católica daquele tempo condenou isso como heresia e engodo. Como diz e adverte as Escrituras, e como a Igreja indicou em Seus embates com os Montanistas, nem todas as experiências "Carismáticas" são de Deus.

Os Montanistas afirmavam que eles estavam adentrando uma nova era do Espírito Santo, com uma ênfase renovada sobre profecia, falar em línguas e outros dons do Espírito. A experiência Carismática moderna faz reivindicações praticamente idênticas. Rejeitar a mensagem Montanista era, segundo o que eles reivindicavam, blasfêmia contra o Espírito Santo.



Os Montanistas profetizavam em primeira pessoa, algo nunca ouvido antes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Aparentemente Montano dizia: "Eu, o Espírito Santo, digo a ti [...]", enquanto que os profetas do Antigo e do Novo Testamento falam todos desta maneira: "Assim diz o Senhor" (conforme Atos 21:11; Isaías 8:1). Eles também proclamavam com fervor o retorno imediato de Cristo, professando até mesmo saber o local e a data. Um autor afirma:

Dizendo receber revelações diretamente de Deus, que completavam e excediam a revelação dada aos Apóstolos, Montano enfatizava as experiências espirituais diretas, extáticas e altamente emocionais para todos os crentes [...] (eles) não reivindicavam ser mensageiros de Deus, mas antes que Deus os "possuía" e que falava diretamente através deles.

(Damick, Andrew. Ortodoxia e Heterodoxia, Conciliar Media Ministries. Chesterson, IN. p. 21).

Eu vou interpor aqui uma pequena experiência pessoal do meu passado Evangélico Carismático. Em diversas reuniões, me recordo ouvir pessoas falando na primeira pessoa: "Eu, o Senhor, digo...".

Mesmo antes de me tornar um Ortodoxo, quando eu me deparei pela primeira vez com o relato histórico de Montano, eu fiquei espantado com suas experiências e alegações, e semelhança com suas contrapartes Carismáticas modernas. A Igreja Apostólica, em seus primeiros anos, teve uma firme reação à experiência Montanista e sua doutrina.

Diante disso, eu tinha poucas opções. Eu poderia pensar que as "trevas" haviam dominado a Igreja muito antes do que eu havia julgado e alterar a data de sua suposta corrupção para os anos 160 d.C. Isso providenciaria uma desculpa para desconsiderar o argumento da Igreja como uma "religião morta". Ou então eu poderia admitir que minhas experiências nos círculos Carismáticos modernos - e sua forte semelhança com o Montanismo - foram (na melhor das hipóteses) muito questionáveis. Eu fiquei com a última opção. 

Outro testemunho da Igreja antiga chegou até nós através de uma carta escrita por Milcíades. Ele apropriadamente fornece um testemunho acerca do movimento Carismático Montanista:

"Contudo, o falso profeta cai em um êxtase, no qual ele permanece sem vergonha ou temor. Começando com ignorância proposital, ele passa, como já foi dito, para uma loucura involuntária da alma. Eles não podem demonstrar que algum dos antigos ou novos profetas tenham sido de tal forma levados no espírito. Tampouco podem se gabar de Ágabo, ou de Judas, ou Silas [Atos 15:32], ou das filhas de Filipe, ou Amia de Filadélfia, ou Quadrato, ou qualquer outro que não pertence a eles [...] Pois os apóstolos julgaram necessário que o dom profético devesse continuar em toda a Igreja até a vinda final. Todavia, eles [os Montanistas], não podem demonstrar isso [continuidade com a Igreja Católica][...]"

(Ibid. 5. 17.)

Baseado nos relatos disponíveis sobre o Montanismo, a imagem reconstruída detém grande semelhança com o movimento da Rua Azusa, que foi o catalisador de todas as experiência "Pentecostais" modernas e de seu fruto subsequente - o movimento Carismático.

A Igreja antiga condenou decisivamente o Montanismo em vários concílios locais na Ásia Menor, e o Bispo Zéfiro de Roma o condenou por volta do ano 200. Muito embora o movimento tenha continuado por ainda alguns anos, a resposta da Igreja Cristã foi clara: "Tais 'experiências carismáticas' não têm sua origem em Deus. São um falso carisma. Têm sua origem em um outro espírito. A Igreja Una Santa e Apostólica nunca conheceu tais 'manifestações'".

É claro, "carisma" é uma palavra das Escrituras que descreve os dons do Espírito Santo na Igreja (conforme 1 Coríntios 12). A Igreja Ortodoxa acredita no carisma verdadeiro, e através de Sua eminente história sempre operou nos dons do Espírito Santo. Contudo, ela também possui um meio de discernir qual seja o carisma verdadeiro, principalmente quando se trata de pessoas. Isso é da competência da sabedoria conciliar e Apostólica na Igreja. A Igreja tem conhecido pela sabedoria do Espírito Santo desde o princípio que existem falsos espíritos que concedem falsos "carismas".



A resposta cuidadosamente deliberada pela antiga Igreja Cristã contra o Montanismo e seus autodenominados profetas, dons "espirituais" e poder deve causar hesitação e circunspecção no Cristão moderno. Cem anos atrás é um período muito recente, e o século passado é somente uma parte da história de 2000 anos da Igreja. Será que essas reivindicações modernas de renovação "espíritual" e poder podem ser confiadas?

Sem dúvida, existe um poder envolvido no movimento Pentecostal/Carismático, mas será que as pessoas colocaram sua fé nesse poder sem que o tenham antes examinado e provado? Será que muitos do Cristianismo moderno fracassaram em seguir a direção de São Paulo: "Examinai tudo. Retende o bem" (1 Tessalonicenses 5:21)? São os sinais e os poderes em e de si mesmos uma prova cabal que algo é de Deus? Ou devemos examinar os sinais e os prodígios para ver onde é que eles levam?

"Quando profeta ou sonhador de sonhos se levantar no meio de ti, e te der um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio, de que te houver falado, dizendo: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los; Não ouvirás as palavras daquele profeta [...]" (Deuteronômio 13:1-3). Não fomos nós devidamente avisados de que falsos cristos e falsos profetas iriam "surgir e fazer grandes sinais e prodígios" para enganar (Mateus 24:24)?

O "cristianismo" apresentado pelo movimento Pentecostal/Carismático, que tem influenciado muito do Protestantismo moderno e do Catolicismo Romano, tem uma orientação fundamentalmente diferente daquela da Antiga Igreja Cristã. Apenas no Romanismo dos dias de hoje, estima-se que existam 115 milhões de Carismáticos.1

Será que os Cristãos devem esperar um "Novo" derramar e uma nova doutrina do Espírito Santo que se baseiam fortemente em ensinamentos de um "grande reavivamento dos últimos dias"? São os sinais e os prodígios evidência de facto que Deus está operando?

Num próximo artigo eu irei me encarregar de examinar essas alegações.

1 https://cruxnow.com/vatican/2019/06/08/pope-to-charismatics-being-afraid-of-change-is-a-temptation-from-the-devil/


Pe. Zechariah Lynch e sua esposa Natalia


O Pe. Zechariah é um sacerdote Ortodoxo em Pueblo, Colorado, na Igreja Ortodoxa do Arcanjo Miguel. Ele escreve no blog The Inkless Pen, e é um colaborador regular do Fé Russa.