Por que os Cristãos Ortodoxos Consideram a Páscoa Mais Importante que o Natal?

Para os Cristãos Ortodoxos, a Páscoa é o centro do calendário litúrgico, enquanto que para os Cristãos Ocidentais (especialmente os Protestantes) o Natal é a festa de maior destaque.

Neste ano (2018), os Cristãos Ortodoxos ao redor do mundo celebram a Páscoa no dia 18 de abril, conforme o antigo calendário Juliano; os Cristãos Ocidentais celebram a Páscoa no dia 1º de abril, segundo o novo calendário Gregoriano. A festa representa um tempo de grande alegria para todos os Cristãos, providenciando uma nobre ocasião para se perguntar por que a Páscoa é para os Ortodoxos o centro do calendário litúrgico, ao passo que para os Cristãos Ocidentais (especialmente os Protestantes) o natal é a festa de maior destaque.

Ao longo do ano, com poucas exceções, o principal serviço Ortodoxo - a Divina Liturgia de São João Crisóstomo - inclui rememorações musicais da Ressurreição. Em cada liturgia o coro canta dois hinos da Ressurreição, ambos no tom da semana (melodia padrão especificada). Estes são o tropário e o kondáquio da Ressurreição. Ambos os hinos representam as formas poéticas Gregas dos primeiros séculos do Cristianismo Ortodoxo, cujas funções evoluíram no serviço eclesiástico ao longo dos anos. Assim, para os fiéis, em cada Divina Liturgia durante o ano, há pelo menos duas rememorações da Ressurreição.

No Cristianismo Ocidental, a ênfase do ciclo litúrgico anual é o Natal em vez da Ressurreição. As razões para tal são profusamente saturadas pelas diferenças entre as tradições teológicas das igreja Ocidental e Oriental. Essas diferenças remontam ao primeiro milênio, quando a doutrina eclesiástica presente tanto no Império Romano quanto do Ocidente era mais ou menos unificada (embora diferenças começassem a surgir). Todavia, a antiga Ortodoxia e o Catolicismo dividiram uma base teológica que que mantinha a Ressurreição como o centro do significado e da experiência religiosa.

A partir dos escritos do teólogo Agostinho de Hipona (354-430 d.C) e se estendendo até os de Anselmo da Cantuária (1033?-1109 d.C), a compreensão do Cristianismo Ocidental do Natal e da Ressurreição mudou daquele ensino Apostólico original. Durante os anos da Reforma Protestante (do Catolicismo), 1517-1648, as concepções teológicas de Agostinho foram codificadas e formaram a base de como os Protestantes de hoje veem estes dois eventos pivotais do Cristianismo. Os pais da Reforma, como Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564) continuaram esta linha de pensamento. Como resultado, a justificativa Protestante da encarnação de Jesus difere-se marcadamente da Cristã Ortodoxa, que reteve a compreensão da antiga igreja.

O pensamento de Agostinho positivou a existência de um Deus irado, a saber: a honra de Deus ofendida pela desobediência de Adão, que tem como consequência o envio de Jesus Cristo como apaziguamento perfeito de Sua honra e ordem do universo. Em outras palavras, Jesus, o Filho de Deus, foi dado ao mundo (segundo os Protestantes) como um "pagamento" para restaurar a honra de Deus por meio de um sacrifício perfeito. O Natal (nascimento) e a Ressurreição são vistos, portanto, como um apaziguamento da ira de Deus e de Sua honra. Devido à vinda de Jesus ao mundo, todos puderam receber a salvação. O nascimento de Jesus Cristo, nesta tradição Agostiniana, representa o entendimento de que Deus deu Seu Filho ao mundo a fim de restaurar a ordem do universo. Para os Protestantes, se alguém crê em Deus, este é "salvo".

Essa interpretação está longe daquilo que a Igreja Ortodoxa ensina: na Ortodoxia, não há um "Deus irado", e a razão pela qual Deus enviou Seu Filho ao mundo não foi o apaziguamento de Sua honra. Antes, Jesus Cristo veio ao mundo como o Novo Adão, para restaurar a humanidade e oferecer salvação. Este ponto crítico escapa à mente Protestante. Para os Ortodoxos, a salvação é manifesta com a vinda de Cristo, mas está constantemente sendo ganha ao longo da vida do indivíduo. Teologicamente, somos salvos três vezes: quando somos batizados, quando morremos em Cristo e no Juízo Final (conhecido também como a Segunda Vinda). A salvação é um processo corrente.

Os Cristãos Ortodoxos não veem o Natal como a finalização da salvação divina. Para se ter uma compreensão mais aprofundada do Natal, é preciso ter a teologia Ortodoxa: No Natal (nascimento), Jesus Cristo sendo um bebê não derrotou a morte, mas foi no final de Seu período no mundo que Ele realizou este feito. Cristo, em sua humanidade, alcançou a restauração da natureza humana, que é atualizada individualmente na vida de cada pessoa. A importância suprema da Páscoa para a teologia Cristã Ortodoxa e o anseio radiante que os Ortodoxos na Rússia e no mundo experimentam durante a temporada Pascal derivam da noção de que a capacidade de Jesus Cristo para superar a morte como Deus foi exercida em Sua descida ao inferno e o pisar da morte, a fim de tornar o mesmo possível para toda a humanidade. Neste sentido de suma importância, os Protestantes não compreendem a Páscoa.

Para os Cristãos Ortodoxos, o Natal é uma ocasião quieta, precedida por um jejum de genuíno anseio da Vinda do Senhor. Na Rússia, este feriado espiritual não é acompanhado da troca de presentes. É um tempo de reflexão sobre a proximidade do indivíduo com Deus e do aprofundamento desta conexão em razão do nascimento de Cristo. A saudação natalina comum é: Cristo nasceu! Glorificai-o! O Natal é assim distinto do Ano Novo na Rússia, em que um pinheiro é usado para decorar o lar e presentes são dados.

Por causa das obras de Jesus Cristo no mundo - Seu ministério, milagres, doutrina em parábolas e em outras formas, Seus atos e submissão à vontade divina até a Ressurreição - a salvação da humanidade se torna possível e realizada. Eis a razão porque no Cristianismo Ortodoxo, a antiga fé, é a Ressurreição, não o Natal, que permanece o foco do calendário litúrgico. É por isso também que anualmente nos longos serviços e Procissões das Matinas, no Ofício da Meia-Noite, e na Liturgia do final do Sábado que vai até a manhã da Páscoa, os Ortodoxos fiéis refletem nas palavras da homilia pascal de São João Crisóstomo, do séc. IV: "Ó morte, onde está teu aguilhão? Ó inferno, onde está tua vitória? Cristo ressuscitou e vós fostes assolados". i E o coro canta o hino Ortodoxo Russo com transcendentemente belas transições de acordes: "Cristo ressuscitou dos mortos, pisando a morte com a morte, dando vida aos sepultados".

i https://oca.org/fs/sermons/the-paschal-sermon


Valeria Z. Nollan é ex-presidente da Associação pelo Estudo da História e Cultura do Cristianismo Ortodoxo. Sua tradução do filósofo Russo Vladimir Solovyov "Fundamentos Filosóficos do Conhecimento Integral" foi publicado pela William B. Eerdmans Publishing Co. em 2008. Uma Cristã Ortodoxa Russa de berço, ela foi a principal preletora da 62ª das Atividades Iniciais do Seminário da Santíssima Trindade em Jordanville, Nova Iorque, em 2010.

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