Os Cristãos Ortodoxos Vão à Igreja à Meia-noite na Páscoa. Isso é Loucura?

Que tipo de louco vai à igreja à meia-noite? Por que alguém faria isso?
Existem duas razões e nenhuma delas envolve alguma doença mental, não da parte dos Ortodoxos...

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Suspeito que muitos Ortodoxos compartilham a experiência de terem convidado amigos para o serviço Pascal, mas que tenham recebido uma polida estupefação: "Você gostaria de participar da Páscoa conosco este ano em nossa igreja?". "Claro! Parece legal. Que horas devo estar lá?". "O serviço começa no Sábado as 23:30". Comunicar esta informação sempre resulta em um momento de silêncio, e depois: "Me desculpe, que horas? 23:30?". A pessoa normalmente é educada o suficiente para não dizer, mas você sabe que eles estão pensando: "Que tipo de lunático vai à igreja as 23:30? Você é louco?". Eles esperavam que nós disséssemos algo como: "Nos encontraremos às 11:30", e até mesmo compreenderiam se nós os convidássemos para um serviço durante o nascer do sol. Um serviço durante o amanhecer seria um pouco trabalhoso, mas ao menos seria realizado durante a luz do dia. Contudo, que tipo de maluco vai à igreja à meia-noite? Por que alguém faria isso? 

Existem duas razões, e nenhuma delas envolve alguma doença mental, não da parte dos Ortodoxos...

Em primeiro lugar, existe uma razão litúrgica. Um princípio da liturgia Ortodoxa é de que quanto mais importante um serviço, mais cedo ele acontece. Receber a Eucaristia durante os dias de semana da Quaresma é importante, mas nós podemos esperar até de tarde para isso. A Divina Liturgia dominical é mais importante e por isso é realizada pela manhã, após uma noite de descanso. Contudo, a Páscoa é algo completamente diferente. A Páscoa é tão importante que não é nem mesmo enumerada na lista das Doze Grandes Festas da Igreja. A Páscoa é a fonte de todas as festas e de nossa vida espiritual. Ela é tão importante que no momento em que o sábado encontra o domingo (i.e., à meia-noite), a Páscoa vem e dá-se início ao serviço. É como se, assim como crianças, nós estamos tão ansiosos que não podemos esperar nem mais um momento sequer: assim que chega o domingo, nós nos reunimos e celebramos, clamando: "Cristo Ressuscitou!".

A segunda razão é espiritual. Nós insistimos em nos reunir quando as trevas são mais profundas, porque nós vivemos em um mundo de trevas profundas, e nossa tarefa neste mundo é iluminar as trevas com a luz de Cristo. Conforme predisse Isaías: "Porque eis que as trevas cobriram a terra, e a escuridão os povos" (Isaías 60:2). O mundo é de fato um lugar negro, enegrecendo cada vez mais. A perseguição contra os Cristãos fica cada vez mais feroz pelo mundo (não noticiada na mídia na maioria das vezes, por causa da censura dos jornalistas ocidentais), e o mundo jaz coberto pela noite sem luar do pecado (citando o "Hino de Cássia", da Semana Santa). O pecado cega o mundo, que se refestela chamando o mal de bem e o bem de mal, tomando as trevas por luz e a luz por trevas (Isaías 5:20). Grandes trevas!

Todavia, em meio às trevas, somos chamados por Deus para brilhar com a luz de Cristo. Isaías disse: "Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti". São Paulo também disse, parafraseando e interpretando as palavras de Isaías para os convertidos em Éfeso: "Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá" (Efésios 5:14). Isaías e Paulo ambos falam de Cristo, do batismo e da Páscoa. No batismo, Cristo brilha com Sua luz nas trevas do coração humano e através de nós ilumina o mundo. Esta é a razão pela qual Isaías disse que depois que glória do Senhor nascer sobre nós, as nações viriam à nossa luz e reis para o brilho de nosso despertar (Isaías 60:3). E é por isto que insistimos em brilhar e cantar em meio às profundas trevas da meia-noite: para revelar a única fonte de luz possível de se encontrar neste mundo negro.

Nós nos reunimos para cantar no meio da noite, portanto, não porque somos lunáticos, mas porque no meio de um mundo negro que enlouqueceu, nós somos a fonte de luz e sanidade. Ao acender nossas velas e romper o ar da madrugada com hinos de triunfo e louvor, revelamos que Cristo pode iluminar as trevas do mundo com a luz da alegria. As trevas espessas que cobrem as pessoas não são somente a treva do pecado, mas também a do desespero. Todavia, não há o que temer. Em Cristo, nós desafiamos as trevas e o desespero, cantando de alegria. Vinde e recebei luz da luz imarcescível, glorificai a Cristo que ressurgiu dos mortos! Cristo ressuscitou!