Abençoada Desobediência ou Maldita Obediência? Quando Devemos Confrontar um Bispo?

"Somos todos responsáveis pela Igreja, e não apenas os Bispos, pois a Igreja não é a propriedade privada de ninguém [...] Frequentemente, quando Patriarcas e hierarcas caíram em erro, apenas os Anciãos e os monges se levantaram para proteger a Igreja de todos os tipos de heresias, e o povo fiel é há séculos reconhecido como o guardião da Ortodoxia".

"A santa desobediência é absolutamente necessária quando a heresia e a decadência moral assumem proporções enormes, quando a Igreja, na pessoa da hierarquia, cai em erro [...]"

Este artigo é do capítulo 2 do excelente livreto - Abençoada Desobediência  ou Maldita Obediência? - escrito pelo Arcipreste Teodoro Zisis.


Capítulo 2

Abençoada Desobediência ou Maldita Obediência?

Por várias razões, a grandiosa virtude da obediência é, infelizmente, incompreendida por muitos. Por causa disso, os crentes perdem sua liberdade em Cristo, seu potencial espiritual interno e toda a capacidade de lutar e praticar o ascetismo. Nas mãos de alguns "confessores" aparentemente piedosos, eles frequentemente se tornam criaturas de vontade fraca e sem liberdade, algum tipo de escravos mansos e sem voz...

A questão que há muito existe na Igreja nos levou a considerarmos seriamente ao assunto da obediência: a maioria de nós frequentemente identifica a hierarquia, o primaz e o Bispo com a própria Igreja, tomando os indivíduos por toda a instituição, que é sem dúvida a Igreja. Portanto, manifestação de desobediência em alguns assuntos para com qualquer uma dessas pessoas é percebida como desobediência à própria Igreja.

Mas o que realmente significa obediência à Igreja? 

Obediência à Igreja significa obedecer ao chefe da Igreja, aos Bispos e sacerdotes enquanto indivíduos - independentemente de serem bons pastores ou mercenários, lançando as ovelhas à própria sorte ou até mesmo nos braços dos lobos? Apesar do fato de que eles mesmos podem não ser obedientes à verdade da fé Ortodoxa? Eles estão “ensinando fielmente a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15)? Devemos obedecê-los, independentemente se o que eles dizem e fazem está em conformidade com o ensino Ortodoxo ou com uma falácia? É apropriado seguirmos qualquer clérigo, obedecendo a todos eles, bons e maus, observando tudo o que nos ensinam, sem decidir se isso é verdadeiro ou falso?

Claro que não! Se uma idéia tão distorcida de obediência houvesse prevalecido na Igreja, então a heresia reinaria nela hoje, pois os santos teriam que ter permanecido em obediência aos Patriarcas e hierarcas heréticos; então o Nicolaismo  [22], associado à homossexualidade, teria se estabelecido para sempre na Igreja...

Tudo o que as Escrituras Sagradas e os santos padres dizem sobre a obediência aos sacerdotes significa obediência aos bons pastores, regozijando-se vigilantemente na verdade e na salvação dos fiéis. Um exemplo clássico disso é um trecho da Epístola do Santo Apóstolo Paulo aos Hebreus: "Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles" (Hebreus 13:17). Todavia, ele considera uma condição necessária para tal obediência, acima de tudo, o cuidado vigilante dos pastores para a salvação espiritual do rebanho: “Porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas” (Hebreus 13:17).

O Apóstolo também encoraja os crentes a se lembrarem de seus pastores. Mas quais pastores? Aqueles que, pelo exemplo de suas vidas, ensinam a palavra de Deus: “Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai” (Hebreus 13:7).

O mesmo se aplica às palavras de Santo Inácio de Antioquia [23] sobre obediência à hierarquia. Muitos defensores de uma eclesiologia "bispocêntrica" apelam às suas mensagens muito imprudentemente, tentando encontrar uma base legítima ou justificativa para a autoridade absoluta dos Bispos, que muitas vezes assume a forma de uma tirania ainda pior do que a do Papado.

De fato, em suas epístolas, Santo Inácio encoraja a plena obediência ao arquipastor. Seria, contudo, para cada um deles? O padre Jorge Metallinos [24], tendo participado de várias reuniões do clero, nas quais, fazendo menção ao santo, fundamentava-se a necessidade de uma inquestionável e absoluta obediência ao Bispo, sempre notou que também é mister especificar quais méritos se deve ter para exigir obediência a si mesmo. De fato, nem todo Bispo atende aos altos critérios que um verdadeiro Bispo deve atender.

Em suas epístolas, Santo Inácio, o Teóforo, certamente implica uma obediência ao bom arquipastor, sem dúvida, como ele mesmo era. Quantos dos hierarcas atuais, assim como o santo, são exemplos a serem seguidos - por sua humildade, caráter ascético e trabalho ativo contra as heresias, bem como sua confissão e disposição de sofrer pela verdade até a morte? São precisamente esses honoráveis Bispos, que ensinam fielmente a palavra da verdade, que a Igreja comemora durante a celebração da Eucaristia.

Seria concebível obedecer aos clérigos que não pregam a verdade do Evangelho, que conduzem seu rebanho ao abismo da perdição pelo exemplo de suas vidas, ou que justificam a heresia das heresias: o ecumenismo? Em que valeria a pena imitar o estilo de vida de tais clérigos?

A santa desobediência é absolutamente necessária quando a heresia e a decadência moral assumem proporções enormes, quando a Igreja, na pessoa da hierarquia, cai em erro, como é hoje o caso acerca da arqui-heresia do ecumenismo...

A heresia impurifica e aflige todo o corpo da Igreja, e, portanto, já não se trata que o pontífice tenha visitado apenas Atenas ou que o Conselho Mundial de Igrejas se reuniu no território da Metropolia de Ática [25]. Em matéria de fé, não existe "na minha jurisdição" ou "na competência de outra pessoa". Foi assim que os padres da Capadócia começaram a combater a nova falsa doutrina [26] do herege Ário [27], ue apareceu na distante Alexandria [28]; ou, por exemplo, Nestório, que iniciou seu sermão herético em Constantinopla [29], tendo sido combatido principalmente pelo Bispo Cirilo de Alexandria [30].

Assim, nenhum Bispo pode justificar o fato de que o pé do Papa não entrou nos limites de suas dioceses, ou que a conferência do Conselho Mundial de Igrejas não foi realizada em sua metropolia, ou que eles pessoalmente não fizeram orações conjuntas com Católicos e Protestantes. Uma vez que eles não se opuseram a isso, não se opuseram de nenhuma forma, não protestaram e não levantaram sua voz contra essa impiedade, isso significa que, juntamente com todos os envolvidos na heresia do ecumenismo, eles compartilham responsabilidades e culpam pelo que foi feito e estão igualmente envolvidos com os demais neste erro. Afinal, de acordo com São João Crisóstomo [31], o Bispo deve não apenas vigiar sua própria diocese, mas também a Igreja Católica Ecumênica [32]  como um todo: “O primaz deve cuidar não apenas da Igreja confiada a ele pelo Espírito, mas também pelo que é ecumênico".

Uma vez que não vemos ninguém na hierarquia eclesiástica lutando contra o ecumenismo, opondo-se a ele ou de alguma forma resistindo ao ataque do Catolicismo e às atividades anti-Ortodoxas do Conselho Mundial de Igrejas, somos forçados a levantar nossas vozes. Mas assim que o Senhor esclarecer os arquipastores, e eles começarem a fazer pelo menos algo acerca da atual situação deplorável, ficaremos imediatamente em silêncio. Até que isso aconteça, nós, simples clérigos e monges, teremos que nós mesmos combatê-lo.

Somos todos responsáveis pela Igreja, e não apenas os Bispos, pois a Igreja não é a propriedade privada de ninguém. O Bispo, juntamente com o clero, bem como os leigos, como um só corpo com a cabeça - Cristo - são responsáveis ​​por isso, cada um à sua maneira. Frequentemente, quando Patriarcas e hierarcas caíram em erro, apenas os Anciãos e os monges se levantaram para proteger a Igreja de todos os tipos de heresias, e o povo fiel é há séculos reconhecido como o guardião da Ortodoxia.

Por fim, tendo representado o Patriarcado Ecumênico e a Igreja Grega em conferências inter-Cristãs, vimos que esses diálogos teológicos não apenas não levam a nada, mas, pelo contrário, levam a apostasia [33] e ao abandono da Ortodoxia. Os ecumenistas Ortodoxos que participam de várias reuniões não devem testemunhar sobre a verdade de nossa fé, embora afirmem que o façam. Na verdade, eles simplesmente se escondem atrás dessa alegação, usando argumentos para justificar sua participação no Conselho Mundial de Igrejas e em outras organizações desse tipo, e nada mais.


Este artigo é do capítulo 2 do excelente livreto - Abençoada Desobediência  ou Maldita Obediência? - escrito pelo Arcipreste Teodoro Zisis.