Origem, Tradição e uso do Cordão Ortodoxo (Parte I)

A Oração de Jesus: A Mais importante oração da Tradição Ortodoxa (Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!)

A Tradição Ortodoxa, desde tempos imemoriais, é permeada de belíssimas orações aos Santos, à Mãe de Deus e ao Nosso Senhor Jesus Cristo, além de orações especiais para as Festas, para a Cruz e outras ocasiões especiais.

Porém, uma das mais simples orações da Tradição Ortodoxa, uma oração de poucas palavras e tão antiga quanto os Evangelhos, ocupa um lugar destacado como a principal oração do Oriente Cristão: a Oração de Jesus, também conhecida como a Oração incessante do Coração.

Esta oração tão simples e tão verdadeira, que soa mais como um desabafo da alma suplicante do que como uma via determinada de oração, tornou-se espontaneamente um caminho espiritual em si, uma forma de elevação espiritual à Deus e a ferramenta principal de uma das mais importantes escolas de desenvolvimento espiritual da humanidade: o Hesicasmo.

Encontramos sua origem nos Evangelhos, em passagens como a da mulher cananéia ( 15:22), a dos cegos de Jericó ( 20:30) e da oração do publicano (Lc 18:13). Em todas estas passagens, encontramos a petição sincera por misericórdia, dirigida direta e confiantemente a Deus, tanto na pessoa do Pai quanto na pessoa do Filho.

A forma estabelecida da Oração foi dada por Macário do Egito (300 - 390 dc), mestre de Evagrios (346 - 399 dc) no deserto. A fórmula estabelecida tomou por base o Nome de Jesus e a oração do publicano, pois o Nome de Jesus é a oração por excelência, invocação de Deus, e “em nenhum outro [ Nome ] há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”, (At 4:12); e, na oração do publicano, encontra-se a verdade da alma contrita, pecadora e humilhada, que busca ardentemente a justificação perante Deus, “porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado” (Lc 18:14). Desta forma, teve início o cumprimento do mandamento do Apóstolo “Orai sem cessar” (1Ts 5:17).

Na segunda metade do século XIII, no Monte Athos, com o renascimento do Hesicasmo, a Oração de Jesus ganhou o status de caminho espiritual, e esta evolução foi auxiliada pelo monge Nicéforo, o Solitário, e por Gregório do Sinai, que associaram um método respiratório à Oração de Jesus, de modo a unir a Oração às batidas do coração, tornando-a, assim, incessante. Porém, este caráter técnico da Oração interior não se alcança rápida ou repentinamente, sendo necessário um treinamento intenso e constante, imprescindivelmente sob a orientação de um guia experimentado na técnica e com maturidade espiritual na oração.

A Oração de Jesus teve como principal foco de prática a vida monástica e contenplativa, bases essenciais do hesicasmo, que é a busca do silêncio, o desapego total das preocupações mundanas, e a adoração perpétua na presença de Deus. Neste ponto, a Oração de Jesus unida à técnica respiratória de Nicéforo e Gregório do Sinai, tornou-se a ferramenta ideal para o êxito do ideal hesicasta, já prevista séculos antes por São João Clímaco, abade do Monastério do Sinai em sua “Escada do Paraíso” : “...que a recordação de Jesus se una à Tua respiração e rapidamente de darás conta da utilidade da hesíquia”. Assim, a fórmula da Oração de Jesus, aliada à técnica respiratória, tornou-se o fundamento do hesicasmo.

Nos tempos atuais, a Oração de Jesus encontrou sua popularização através de uma coletânea de textos patrísticos sobre o hesicasmo entitulada Filocalia (palavra grega que significa “Amor ao que é belo, ao que é bom”. A Filocalia foi traduzida para o eslavo por Paissy Velichkovky sob o nome de Dobrotolubiye, a qual foi utilizada pelo célebre São Serafim de Sarov. Seu valor espiritual é tal que era reconhecida como Breviário do Hesicasmo.

A grande prova de que a publicação da Filocalia foi responsável pela popularização da Oração de Jesus foi o aparecimento de um livro no ano de 1870 em Kazan, que encanta por sua extrema simplicidade e elevada espiritualidade: O Caminho do Peregrino (ou, no Brasil, Os Relatos de um Peregrino Russo).

O livro relata a busca espiritual de um leigo ortodoxo e sua caminhada evolutiva na Oração de Jesus sob a luz da Filocalia. A vocação hesicasta do Peregrino é claramente demonstrada pelo prazer que encontra nos seus (raros) momentos de solidão e pela busca constante do aprimoramento da Oração de Jesus. Para isso, ele contou com a orientação espiritual de um staretz que, após um curto período de instruções, falece e deixa o Peregrino continuar sua busca pela Oração pelas estepes da Rússia, aparecendo-lhe por vezes em sonhos. Durante o treinamento, o staretz presenteou-o com um cordão de oração, instrumento inseparável do Peregrino e personagem principal de um dos mais belos relatos da obra (o encontro com o lobo). Com a chegada desta obra, o ocidente tomou conhecimento pela primeira vez do cordão de oração ortodoxo.

O Cordão de Oração Ortodoxo: Um Instrumento Vindo do Céu

Como em tudo na nossa vida, o nosso Pai que está no céu sempre provê meios para que seus filho mantenham-se firmes no caminho que Ele determinou e evitando que caiamos nas ciladas do maligno. Para que pudéssemos manter nossa vida de oração produtiva e regular, Deus também não nos negou auxílio.

A Tradição nos revela as origens do cordão de oração pelas mãos de São Pacômios, discípulo de Santo Antônio, o Grande, em meados do século III e.C. São Pacômios foi o fundador do monaquismo cenobítico e uma de suas grandes preocupações era auxiliar os monges iletrados a manter uma vida de oração ativa, porém sem a necessidade da leitura do saltério, dos serviços e do horologion.

Decidiu então fazer uso da Oração de Jesus para suprir a necessidade de oração de seus monges e, como auxílio para manter a regra de oração equivalente, resolveu fazer um cordão com nós para contar as orações. Porém, qual não foi o seu desapontamento quando notou que, ao terminar de dar os nós no cordão, o demônio veio e desatou todo o cordão, no intuito de frustrar as intenções de Pacômios em auxiliar os monges e, com isso, atrasar o desenvolvimento espiritual. Abatido pela investida do demônio, Pacômios clamou pelo auxílio de Deus e em suas orações pedia inspiração para vencer o demônio e auxiliar os monges na prática da oração.

Em sua infinita misericórdia, o Pai celeste enviou a Pacômios o Anjo Gabriel, que lhe ensinou um nó formado por sete cruzes intercaladas, o qual o demônio não conseguiria desatar. Neste momento foi dado ao mundo o cordão de oração ortodoxo, denominado em grego Komboskini e em russo Chotki.

Esta é a origem lendária e tradicional do cordão de oração. O que se sabe como fato concreto é que o primeiro cordão de oração surgiu no monastério de Thivaida do Egito, estabelecido por Osios Pahoumios (nome exato de São Pacômios) no ano de 320 e. C. Era composto por um cordão de lã com trinta e três nós, separados por uma conta de madeira a cada onze nós, com suas extremidades unidas em forma de cruz e era, como na origem lendária, utilizado pelos monges iletrados para servir como auxílio ao controle da regra espiritual de oração. Foi considerado o instrumento principal do monaquismo hesicasta, sendo que até os dias de hoje a entrega do cordão de oração ao novo monge faz parte da cerimônia de tonsura.

A regra de oração no monastério de São Pacômios era austera e a substituição dos ofícios e orações pela Oração de Jesus era feita da seguinte forma:

Ao invés
- Do saltério completo                  6000 Orações de Jesus
- De um kathisma                         300 Orações de Jesus
- De cada stasis                           100 Orações de Jesus
- Do Serviço da Meia Noite:         600 Orações de Jesus
- Das Matinas                               1500 Orações de Jesus
- Das Vésperas                             600 Orações de Jesus
- Das Grandes Completas            700 Orações de Jesus
- Das Pequenas Completas          400 Orações de Jesus
Horologion
- Com as Horas Menores              1500 Orações de Jesus
- Sem as Horas Menores              1000 Orações de Jesus
- Akafist à Santíssima Theotokos  500 Orações de Jesus

Atualmente o cordão de oração saiu do interior dos monastérios e atingiu as mãos dos leigos que, inflamados pelo zêlo espiritual e pelo amor ao caminho da Oração de Jesus, auxiliam na preservação e divulgação deste sagrado instrumento. Hoje em dia, a grande maioria dos pais espirituais entregam cordões de oração aos seus filhos e lhes prescrevem a Oração de Jesus como regra espiritual.


É possível acessar a Parte II aqui.

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