Em Defesa das Mulheres Que Aderem à Tradição de Usarem Véus

"O uso do véu por essas mulheres serve para diferenciá-las do mundo secular ao seu redor".

Originally appeared at: Ortho Christian

Na instigante obra chamada "Véus, Modéstia e a Ortodoxia Moderna", publicada em Public Orthodoxy, Katherine Kelaidis tem algumas coisas valiosas para dizer sobre as mulheres que usam véus no Ocidente moderno.

Nessa obra ela oferece uma apreciação histórica muito necessária e valiosa, de que mulheres como sua avó usavam véus na Grécia, mas ao virem para a América elas abandonaram a prática a fim de se assimilarem mais facilmente na cultura de seu novo lar escolhido.

Nas palavras de Kelaidis: "Minha avó deixou de cobrir seu cabelo por causa das pressões de xenofobia e assimilação, juntamente com o desejo de criar um espaço mais liberal para as mulheres de sua própria cultura".

Ela prossegue ao notar que as mulheres Ortodoxas modernas, desde o final dos anos 90, normalmente cobrem seus cabelos com véus por decisão própria, mesmo quando elas não estão na igreja. Ela enxerga a decisão dessas mulheres como sendo contrária ao contexto da experiência de sua própria família, e diz que quando essas mulheres "tomam o véu em completo descaso pelas histórias e vidas das mulheres que eu tanto considerei, eu não pude senão sentir um pouco de ira".

Para ela, a escolha moderna de algumas mulheres Ortodoxas de usarem o véu constitui uma ingrata rejeição dos sacrifícios feitos por aquelas mulheres imigrantes de uma geração anterior.

Kelaidis está irada e sente-se "incrivelmente frustrada" de que elas "tomam essas decisões sem terem pensado em mulheres como minha avó. Mulheres cujas vidas elas negligentemente ignoram a cada instante. Mulheres cujas habilidades como mães e Cristãs elas zombam tacitamente. Mulheres cujos desafios e triunfos elas não sabem e não se importam em conhecer".

Eu não sou um daqueles que insiste que as mulheres Ortodoxas devem usar véus, seja na igreja ou em público. Na nossa própria paróquia de São Herman em Langley, B.C., algumas de nossas mulheres usam véus e outras não. Isso está completamente nas mãos das próprias mulheres. Eu não vou repetir aqui o argumento e o contra-argumento do conselho de São Paulo em 1 Coríntios 11.

Qualquer pessoa que esteja interessada em saber como eu interpreto essa passagem pode comprar meu comentário e ler por si mesma. Todavia, em defesa das mulheres que decidem por usar o véu na igreja, eu gostaria de apresentar o seguinte:

Todas as mulheres que eu conheço pessoalmente que usam o véu na igreja não pretendem, com isso, fazer uma afirmação sobre mulheres e sobre a avó de Kelaidis de forma alguma. Elas são gratas, eu suponho, por possuírem a decisão de usarem ou não o véu, e elas tomaram a decisão.

Meu palpite é que elas sentiriam que uma exigência para que elas não usassem o véu seria tão inaceitável quanto uma que exigisse que elas usassem o véu, mas cabe a elas responder a essas questões, não a mim. O que é mais certo é que sua escolha não é baseada em conflitos culturais de duas ou mais gerações anteriores, mas dos conflitos culturais do presente.

Na igreja de São Herman nós temos várias tipos distintos de pessoas, tanto Norte Americanos convertidos como Ortodoxos étnicos de berço. As mulheres Russas, Romenas e Gregas todas usam véu (se a memória não falha; não é importante ficar tomando nota), assim como algumas, mas não todas, das nossas mulheres convertidas.

Se forem perguntadas por que fazem isso, eu suspeito que aquelas diriam que elas nunca pensaram muito sobre isso, mas foi assim que elas foram ensinadas. Já as outras diriam que elas escolheram fazer isso depois de pensar sobre. Existem, de fato, pelo menos duas boas razões para essa decisão, e nenhuma delas tem a ver com a avó de alguém.

A primeira razão é um modo de demonstrar respeito pela santidade do edifício em que elas entram (por favor, notem: eu não estou sugerindo que as mulheres que não usam o véu não demonstram, portanto, respeito suficiente).

Aquelas que usam o véu na igreja frequentemente não o fazem do lado de fora em público, de forma que o se vestir diferente é seu modo de reconhecer que a nave da igreja é um tipo diferente de lugar do que o shopping ou a rua.

É precisamente porque o véu não é usado em público que ele pode ser tomado como um sinal de respeito no edifício da igreja. É o equivalente em vestimenta de fazer o sinal da Cruz quando se entra em um lugar santo.

Essa é a razão, eu suspeito, pela qual as mulheres Ortodoxas usam o véu na igreja na Rússia: como um sinal de respeito. Contudo, eu nunca estive na Rússia, e eu só posso palpitar sobre o que acontece por lá. O que é certo é que isso é o que motiva as mulheres Russas da igreja de São Herman quando elas usam o véu.

Dado este elemento do respeito pela santidade do lugar, o uso do véu por parte das mulheres convertidas também serve para uní-las com as mulheres Ortodoxas de outros países como a Rússia, a Romênia e a Grécia.

As convertidas se alegram em aprender de suas irmãs de berço Ortodoxo, e nem sempre (nas palavras de Kelaidis) "fazem publicações nas redes sociais sobre a falta de 'zelo' dentre as Ortodoxas de berço". As convertidas se alegram ao aprender sobre a Ortodoxia com aquelas que vieram antes de si e que viveram em outro lugar no mundo - incluindo sobre o uso de véu na igreja.

Em segundo lugar, o uso do véu por essas mulheres serve para diferenciá-las do mundo secular ao seu redor. Nos dias da avó de Kelaidis, a meta era se assimilar para evitar os perigos da xenofobia.

No mundo de hoje, o objetivo é diferente: evitar a assimilação com a insana e ímpia sociedade ao nosso redor (nas atemporais palavras de São Pedro), "Salvai-vos desta geração perversa" (Atos 2:40). À partir de suas palavras, alguém pode imagianr que Kelaidis está presa no passado, enfrentando os mesmos desafios dos anos passados, quando a assimilação dos imigrantes era uma necessidade urgente.

Contudo, agora, ao menos desde a décade de 90 (quando ela disse que os véus surgiram no mundo), o desafio para as mulheres Ortodoxas é construir uma saudável contracultura para se viver e criar seus filhos.

Se elas decidirem fazer que o uso do véu na igreja é um dos elementos dessa contracultura, quem é a Kelaidis ou qualquer pessoa (inclusive eu) para dizer o contrário? As palavras "a decisão é da mulher" podem e têm sido horrivelmente abusadas, mas certamente eis aqui uma instância em que a decisão de uma mulher deve ser respeitada.

Dança Grega em Cleveland, Ohio. Foto: Cleveland people.com

    

Kelaidis está até que certa sobre uma coisa: "modéstia não é uma linha que você traça em seu joelho [i.e. a barra de um vestido], mas uma linha que você traça no seu coração". Mulheres podem ser modestas e piedosas sem usarem véu na igreja, assim como muitas mulheres na minha pequena igreja podem atestar.

Contudo, o véu é agora não apenas - ou mesmo primariamente - uma ferramente de modéstia. Não obstante, Kelaidis afirma que a "Modéstia sempre foi o objetivo do véu". 

Agora, ele é uma decisão que algumas mulheres tomam para expressar seu respeito por um local sagrado e seu desejo de ser diferente do mundo secular ao seu redor. É claro, as mulheres podem fazer isso sem usarem o véu. Todavia, algumas mulheres optam por fazer isso através do uso do véu. E elas não deveriam ser permitidas fazer isso sem serem censuradas ou rechaçadas nas páginas do Public Orthodoxy?

Eu só posso imaginar se o principal alvo da ira de Kelaidis não é propriamente o véu entre as mulheres Ortodoxas convertidas, mas o fato de que essas mulheres convertidas escolheram usar o véu como uma expressão de sua decisão de serem contraculturais e rejeitarem o secularismo ao redor delas - um secularismo que o Public Orthodoxy parece frequentemente abraçar.

O objetivo ainda é a assimilação na cultura contemporânea, até mesmo hoje quando nossa cultura se tornou doentia.


Por favor, nos ajude e faça o que puder para manter o site Fé Russa no ar.

É preciso de uma equipe de tempo integral para manter esse site, e nossos trabalhadores precisam alimentar suas famílias. Nós ainda não alcançamos nossa meta de arrecadação, e precisamos de sua ajuda. Uma doação recorrente de até mesmo R$5 ou R$10 por mês seria uma benção, e nos ajudaria a continuar.