O Futuro da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia (ROCOR)

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O Pe. John Whiteford discute uma questão que surge com frequência: "Já que a Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia (ROCOR) e o Patriarcado de Moscou (PM) se reconciliaram, por que ainda temos três jurisdições de origem Russa nos Estados Unidos? Temos ainda a ROCOR, temos ainda as paróquias que fazem parte do PM, e temos a Igreja Ortodoxa na América (OCA) que recebeu um Tomo de Autocefalia do PM. Apesar de todas as divergências históricas do passado e de todos os 'motivos' negativos associados pelos quais essas jurisdições surgiram, algo está sendo feito para unir essas três jurisdições?".

Para entender por que essas três jurisdições ainda não estão unidas em uma só jurisdição, é preciso entender a história de por que acabamos com três jurisdições Russas em primeiro lugar. Antes da Revolução Bolchevique, havia apenas uma jurisdição unida na América do Norte. A Revolução Bolchevique colocou os ateus militantes em posição de causar divisões na Igreja, e eles não deixaram de tirar vantagem desse poder.

A Assembleia dos Bispos Ortodoxos Canônicos em 2010. Foto: Wiki Ortodoxo.


Antevendo as dificuldades que a Igreja Russa enfrentaria sob um regime ateu militante, o Patriarca Tikhon fez duas coisas para permitir que a Igreja continuasse a funcionar. Ele emitiu o Ukaz 362 [N.T.: Decreto], que permitiu aos Bispos que não podiam se comunicar mais com a Igreja Mãe formarem suas próprias autoridades eclesiásticas temporárias para governar a Igreja. Ele também nomeou três locum tenentes (administradores temporários, enquanto se aguarda a eleição de um novo Patriarca) que deveriam tomar seu lugar, porque temia que a Igreja não pudesse nomear um locum tenens quando chegasse o momento, e ele nomeou três para que se o primeiro não pudesse tomar posse, o segundo o faria, e se ele não pudesse, o terceiro o faria. Para encurtar a história, os Soviéticos prenderam todos os locum tenentes e acabamos com um vice-locum tenens no comando, o Metropolita Sérgio. Portanto, tivemos uma situação sem precedentes, com duas outras soluções sem precedentes empilhadas no topo.

O chefe interino da Igreja Russa, o Metropolita Sérgio, foi forçado pelos Soviéticos a emitir uma declaração de lealdade à União Soviética, com a qual se esperava que até mesmo o clero fora da Rússia consentisse. Entretanto, a maioria desses clérigos não concordou com isso. No início, os Bispos fora da Rússia estavam todos unidos sob os auspícios da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia, mas divergências sobre como proceder e como aqueles fora da Rússia deveriam se relacionar com a Igreja dentro da Rússia, sob o comando do Metropolita Sérgio, levaram às divisões. Há uma bela história, mas curta, da relação entre a ROCOR e o que se tornou a OCA (originalmente conhecida como Metropolia Americana) [aqui: https://orthodoxwiki.org/ROCOR_and_OCA]. Contudo, para resumir, houve dois períodos em que a ROCOR e a Metropolia Americana estavam unidas: o primeiro se deu entre 1921-1926, depois entre 1935-1946. No final dos anos 60, elas quase se uniram uma terceira vez, mas o Patriarcado de Moscou ofereceu à Metropolia Americana um Tomo de Autocefalia, que acabou por encerrar as conversas.

Durante aqueles anos, houve também várias paróquias na América do Norte que ficaram sob a autoridade do Patriarcado de Moscou, que não eram nem da ROCOR nem da OCA, embora o número fosse sempre o menor dos três.

Uma coisa importante para se entender sobre o Tomo de Autocefalia dado à OCA é que foi declarado especificamente que ele não invalidava qualquer outra jurisdição Ortodoxa (como as Arquidioceses Antioquinas e Gregas) na América do Norte, e previa a existência separada de paróquias do Patriarcado de Moscou que não quiseram fazer parte da OCA. Desta forma, este Tomo claramente não é um Tomo de Autocefalia no sentido usual, porque, normalmente, uma Igreja Autocéfala tem jurisdição exclusiva sobre seu próprio território, por definição. Assim, na realidade, o que este Tomo fez foi permitir que a OCA e o PM se reconciliassem, sem que a OCA tivesse que se submeter ao PM numa certa altura em que o PM ainda estava sob severa perseguição dos Soviéticos, estando, por esta razão, sujeitos à manipulação dos Soviéticos (razão pela qual a OCA não se reconciliou antes, quando isso significaria tornar parte do MP). É possível dizer também que o Tomo tinha a esperança de que eventualmente todas as outras jurisdições na América do Norte se unissem e tornassem a OCA uma Igreja verdadeiramente unida e autocéfala no sentido usual do termo.

Então, quando a ROCOR e o PM se reconciliaram em 2007, certamente foi um tópico de certa discussão se as três jurisdições Russas na América do Norte se uniriam, mas acho que a maioria das pessoas entendeu que isso não era possível na época. A questão pastoral prática é que, por muitas décadas, as relações entre essas jurisdições foram frequentemente tensas. Houve também clérigos e paróquias inteiras que passaram de uma jurisdição a outra, e nem sempre por razões de princípio, mas simplesmente por problemas com determinados Bispos. Agora podemos ter relações cordiais entre nós e tem havido um nível crescente de cooperação entre as jurisdições, mas há questões que permanecem.

Havia algumas esperanças de que a Assembleia dos Bispos pudesse não apenas reunir essas três jurisdições, mas também todas as outras na América do Norte, mas quaisquer esperanças de que isso acontecesse em um futuro próximo foram frustradas pelo reconhecimento do Patriarcado Ecumênico dos cismáticos na Ucrânia. Portanto, é mais provável que haja alguma fusão dessas três jurisdições antes que haja algo em maior escala, mas mesmo isso tem obstáculos.

Eu penso ser provável que no futuro haja uma unificação das paróquias do PM na Europa Ocidental com a ROCOR. Pude contemplar a existência de um Metropolita da Austrália e da Nova Zelândia, tornando-se uma entidade própria. É certamente plausível que alguma fusão aconteça na América do Norte, mas embora existam partes da OCA que são muito próximas da ROCOR em termos do ethos, também existem elementos que abraçaram um espírito modernista que é totalmente estranho para nós e, portanto, acho que a OCA precisaria lidar com isso antes que qualquer conversa séria sobre uma fusão na América do Norte fosse possível. A OCA tem muitas coisas positivas em seu favor e muitas coisas que ela faz bem, e a ROCOR certamente não é isenta de problemas. Não sabemos o que o futuro nos reserva. Desenvolvimentos futuros podem ajudar a nos unir. Há muita convulsão na sociedade hoje, assim como na Igreja, e podemos orar para que, à medida que Deus agita as coisas ao nosso redor, Ele nos conduza a todos para mais perto Dele, o que inevitavelmente nos unirá.

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